quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Chuck Wallberg (IV)

Em duas décadas a terra rodopiou ao seu ritmo normal. As casas cresceram em direcção ao céu e a sensação de distância deixou de fazer sentido. Em pouco tempo escreveram-se regras e princípios; leis, decretos, missivas. E fizeram-se eleições. A ordem voltou às ruas. As fronteiras voltaram a fazer sentido.

O raiar da aurora voltou a marcar o nascer de um novo dia. O reboliço. A confusão...A rotina. Voltou a ouvir-se conversar nas esquinas. Voltaram os sorrisos, a simpatia. As pessoas voltaram a ser pessoas.

Esperança. Sim, esperança. A palavra que define o estado de espírito de uma geração que levou anos a viver em permanente agonia. Em constante sobressalto. Sonhos? Tiveram-nos como qualquer geração. E ideais, sim. Utopias, óbvio. Especialmente utopias. Quem as não tem? Acredita-se que, no fim da linha, se pode. Tudo se pode. Tudo é possível. Até mesmo renascer das cinzas. Fazer o possível e o impossível para voltar a respirar o ar puro. Caminhar pelo túnel dentro em direcção ao clarão que ofusca e fere os olhos. No fim da linha acredita-se. Acredita-se que a luz está lá. Mas qualquer coisa mais. Porque é isso que se deseja sempre. Algo mais. E tinham conseguido.

E aquela rua nunca estivera tão serena, tão perfeita, tão limpa, tão simetricamente ordenada, tão milimetricamente espaçada de jardim a jardim, de porta a porta. A mesma rua que Chuck encontrou, vinte anos depois. A mesma rua de onde partira sem qualquer tipo de remorso. Pareceu-lhe outra mas, no intimo, sabia que tinha sido ali que, à sua maneira, se tinha tornado homem .

Continuou, rua abaixo, sem fazer qualquer esforço para reprimir aquela avalanche de energia que se lhe apoderava da mente. Sabia ao que vinha. Inundou os pulmões com o fumo de uma última baforada do seu cigarro e sem qualquer tipo de preocupação largou no chão uma pequena mortalha ainda incandescente. A nuvem de fumo voou ao sabor da aragem, suave e constante. O cheiro do tabaco estava agora à entrada de todas as portas do bairro, pronta a entrar...

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