segunda-feira, 7 de março de 2011

É Duro Pensar Nas Garrafas Que Ainda Faltam Beber!

Seja eu atraiçoado pela falta de memória festivaleira, não recordo, na última década, tamanho frenesim em redor do vencedor do Festival da Canção. Mais agudo ou menos agudo, mais falsete ou menos falsete, mais cavaquinho ou menos cavaquinho, a música vencedora esteve sempre, a meu ver, dentro dos padrões considerados “normais” ou, dito de outra forma, aceitáveis para o evento em questão. Aquilo era aquilo e pronto, ajeitava-se, nós lá encaixávamos, ouvíamos, e, nem que fosse às escondidas, trauteávamos. O que, entenda-se, nem quer dizer que fosse o melhorzinho.

Mas até eu, que mais depressa acredito no regresso à Terra de nosso Senhor Jesus Cristo, a ver, um dia, a representante do cançonetismo luso vencer o Festival da Eurovisão – e não tem nada a ver com o pessimismo crónico que me afecta dia sim dia sim –, fiquei surpreendido com o desfecho do passado sábado, encerrada a votação e conhecido o vencedor de mais uma edição. Para falar a verdade, noutro contexto, até simpatizo com o formato, aparentemente naif; e dou umas gargalhadas e reajo às piadolas e tudo. Aquilo é engraçado, espevita o saudosismo e dá assim um certo ar de rebeldia chique.

Porém, na minha modesta, humilde e desinteressada opinião, a haver conclusões a tirar, nem devem essas passar pela parte musical. Sabemos que no pós-década de setenta, chegado o declínio e o descrédito do Festival, as melodias intragáveis e as letras melosas e absolutamente idiotas tornaram-se na rotina habitual. Pois o pior nem é o Jel e seus muchachos terem ganho o prémio mais cobiçado (até ele ficou encavacado). Mais depressa cortam os pulsos dez suicidas ao som do “Quando cai a noite na cidade”. Noto é que, como nação, estamos a afunilar pelas mais tenebrosas características dos países da América do Sul. Deixámos de acreditar e agora achamos que tudo serve para mostrar o descontentamento. Mas pode até ser que lá para Maio, na Alemanha, o júri vá na conversa e dê bastante ênfase à parte cénica do embrulho. À ceifeira eu dou doze pontos, pelo menos.

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