segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Chuck Wallberg (II)

Apesar de tudo, o simples facto de estarem ali todos juntos, sentados, fazia-os sentirem-se bem; crentes, descontraídos e confiantes.

À data dos acontecimentos que vos irei descrever, Chuck Wallberg era ainda uma criança inocente, uma criança para a qual a maldade do Homem não existia. Aliás, para quem não existia qualquer tipo de maldade. Normal, bem vistas as coisas, numa criança de seis anos. De facto, aos olhos brilhantes de Chuck tudo era perfeito. Deslumbrava-se com pouco. Tudo era motivo para um rasgado e sentido sorriso. Por vezes, o pai pegava nele ao colo e num movimento único erguia-o pelos pés, em direcção ao céu. E nestas alturas Chuck sentia-se como se conseguisse tocar nas nuvens. Sentia-se especial, diferente, forte; com uma força interior imperceptível a não ser para ele próprio.


Mas voltando ao inicio, não querendo adiantar-me...


Naquela noite sentaram-se à mesa com o objectivo de decidirem o que fazer daí em diante. A luz da candeia iluminava-lhes os rostos, num tom laranja que serpenteava de forma incontrolável. E aquecia-os, também. O azeite, estava já a menos de um terço. Sabiam que não conseguiriam arranjar mais antes de o dia nascer. Era, pois, preferível irem directos ao assunto. Sempre falavam olhos nos olhos. Porque depois não lhes restava outro remédio se não irem deitar-se. Irem dormir. Ou pelo menos tentar. Descansar, vá.

No topo, George Wallberg, homem robusto e de físico compacto, aparentava um semblante pesado e pensativo. Provavelmente ressentia-se do peso da responsabilidade. Um por um olhou para os filhos, que o rodeavam à volta da mesa. Anne, a mais velha, estava sentada ao seu lado direito com a sua habitual altivez que inspirava segurança. Mãos e dedos entrelaçados em cima do tampo da mesa. Como se estivesse a orar. Costas muito direitas. Elizbeth, a segunda mais velha, com uma diferença de quatro anos para Anne, em breve a fazer vinte anos, estava sentada do lado esquerdo de George. Os olhos de Elizbeth aparentavam um estado de espírito totalmente diferente do de Anne. Vislumbrava-se-lhe tristeza no olhar. Uma certa dose de temor. "Saio à mãe", costumava dizer. "Sou uma fraca".
Sabiam que o assunto era delicado. Uma decisão, fosse ela qual fosse, implicaria uma mudança na vida de todos. Estava apenas em causa saber-se o que, realmente, cada um deles estava disposto a fazer para mudar o estado das coisas. No outro topo da mesa, expectante, Chuck observava o pai e as irmãs. Parecia embrenhado num estado de apatia mas, em segredo, observava-os ao pormenor. O pai olhou-o nos olhos e ele, impassível, sem se mexer, limitou-se a esboçar um ténue sorriso. "Deve achar que sou um rato", pensou George, tentando ler os olhos do filho, mas esbarrando numa parede de um brilho impenetrável.
Haveria de o compreender um dia, em definitivo...

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