O Caracol, invertebrado de afável simpatia e de ranho translúcido tolerado, hesitante nos movimentos mas exuberante nas reacções afectivas que provoca quando em contacto directo com os vários tipos de cerveja, ainda serve, em algumas zonas desta nossa capital, de dinamizador à economia e aos pequenos empresários locais. Assim, arrisquem-se e deixem-se levar à aventura ali para os lados do Coliseu de Recreios. Visivelmente, é certo, o negócio da restauração anda titubeante. E com isso muito sofrem as cataplanas de marisco, as lagostas e os bifes do lombo. Porém, aparentemente, o caracol, esse, continua a dar cartas e a alegria necessária às esplanadas e a fazer com que, por alguns quantos quartos de hora, nos esqueçamos que um dia destes, já quase ali, as férias vão ter de acabar.
Como nem tudo são rosas, particularmente em toda e qualquer laracha à boa maneira portuguesa, também neste caso existe um pequeno e ambíguo “mas”. O caracol, apesar de todo o seu sucesso e décadas a provar que merece a nossa confiança, corre agora sérios riscos de se ver ultrapassado na importância e, até quem sabe, obliterado irremediavelmente dos cartazes escritos à mão que por aquelas bandas alegram as paredes dos restaurantes. Uma “nova” espécie de vertebrados de infindável versatilidade, perspicácia e ousadia luta para ocupar um lugar de destaque em toda aquela extensão de pedras da calçada. Profundos conhecedores das mais modernas técnicas de marketing e de venda porta a porta, qual família chinesa a fazer imitações de ténis da Adidas, trabalham de sol a sol, arduamente e sem olhar ao descanso do pessoal, em feriados, pontes ou fins-de-semana.
O seu lema é simples, é simpático, é bonito e, à primeira vista, é tipicamente português. Eu cá é que ia-me engasgando, mas, talvez, apenas porque estava distraído a esventrar um caracol e a emborcar mais um trago de cerveja. Quanto à ideia está lá toda e é inovadora. Então, quando forem aos caracóis, não se admirem se no antes, no durante ou no depois, vinda do nada, uma angelical voz vos aborde e vos pergunte: “vai uma drogazinha?”
Para ser sincero, eu até achei querido.
2 comentários:
Falando em primeiro dos caracóis, sabias que a maior parte deles vem de Marrocos? Já a oferta da "drogazinha", sim, é uma abordagem fofinha.
Pois eu sei de um cantinho onde se comem invertebrados muito mais saborosos do que os que servem à porta de Santo Antão.
E sem oferta de "axe".
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