segunda-feira, 16 de agosto de 2010

2001 Odisseia No Espaço!

Reparo, sem ter de procurar muito, que ontem se contabilizou o número redondo de dois mil e um mortos, internacionais, no Afeganistão.

Ora a mim, que quase não sei onde fica o Afeganistão, ou pouco mais sei de que fica para lá para aqueles lados, bem para longe daqui, num canto qualquer, custa-me a entender e a tolerar tal chacina, que considero um desperdício de vidas intolerável. É, então, óbvio que, não faz parte dos meus planos pessoais algum dia ir ao Afeganistão. Não apenas porque o Afeganistão é longe que se farta, e que a viagem deve ser do maior aborrecimento que se possa imaginar, mas porque há muito descobri que o medo abunda em mim, da cabeça aos pés, que me domina e me congela o pensamento e que, provavelmente, no Afeganistão, não duraria um minuto em pé.

Não tendo feitio para aventureiro, não sou do género capaz de abdicar dos pequenos confortos da nossa saborosa futilidade diária, do sol da praia, dos carros de alta cilindrada, dos telemóveis, das viagens no Verão, da internet, dos relógios. Ou, também, das maiores responsabilidades sociais que nos dão status, e nos fazem ser alguém nesta vida, como são o caso de ter um emprego estável das nove às cinco, ganhar um bom ordenado, beber chá ou café, falar inglês, ter um curso superior, ter uma relação estável para me afirmar. Tudo coisas que, por outro lado, ao contrário do que imagino ser uma viagem ao Afeganistão, acabam por dar um gosto especial à nossa vida e que, sem a menor sombra de dúvida, nos permitem dizer, à boca cheia, que somos, realmente, pessoas imensamente felizes.

Assim, aqui, bem longe, em segurança, o que oiço nas notícias basta-me para perceber que há situações que nunca deveriam ter surgido. Que a guerra, lá longe, no Afeganistão, é, muito provavelmente, uma delas. Uma estupidez. Uma perda de tempo. Mas, sei eu, talvez não seja apenas o medo uma das razões que me leve, de forma tão decidida, a afirmar que, a mim, nunca me apanhariam lá, por aqueles lados. Aqui também se morre, e é um sito tão fodido para morrer como qualquer outro, em qualquer outro país. O que, por si só, sair à rua todos os dias, aqui, já faz de mim um tipo forte e decidido, capaz de, mesmo sem usar Axe, provocar o mais selvagem dos desejos, no sexo oposto. Ainda para mais, e bem mais, assustar-me-ia a ideia de ter de me pôr à prova diariamente, de entrar num desafio constante à minha sanidade mental e à minha resistência física. E isso, bem vistas as coisas, não tem valor absolutamente nenhum. Até porque, no fim da linha, o que esperam de mim, ou de qualquer um de nós, homens, é que seja alegre e descontraído, que ande de bem com a vida, que seja pai, simpático, marido, que vista bem, que ande na moda, que vote no partido certo, que fale com palavras bonitas e que escreva dentro da legalidade do novo acordo ortográfico.

Tenho na ideia que, ainda assim, como qualquer país do mundo, que também o Afeganistão possa ter as suas próprias cores, os seus próprios cheiros, as suas próprias gentes, as suas próprias particularidades jamais impensáveis. Coisas que não se vêem na televisão, nem se lêem nos jornais, características intangíveis que podem até, sem esforço ou surpresa, provocar em nós uma espécie de mistério e de intrigante interesse. Mas sei que nunca iria ao Afeganistão porque, imagino eu, como ir e ver no cinema, a maior aventura que alguma vez farei, pior do que perder uma perna ou um braço, ou até mesmo a vida, seria ir, voltar e sentir que, sem o ter pedido, já não era é o mesmo. Irremediavelmente. Especialmente, se ninguém se importasse com isso.

3 comentários:

Unknown disse...

A mim parece-me mais Laranja Mecânica!

Catarina Santos disse...

Sureal ... é o que me apraz dizer-te!

Ginger disse...

Pois eu acho que serias gajo para se safar lindamente por lá.