sábado, 21 de agosto de 2010

Chuck Wallberg V

Noite. A rua, surpreendentemente limpa e brilhante. Havia chovido durante quase três horas seguidas. Pequenos regatos de água escorriam ainda, livres e resolutos, pelas bermas de cimento, impermeável, arrastando consigo, no turbilhão da correnteza, pequenos despojos e dejectos abandonados. As folhas das árvores pingavam, rejuvenescidas. Aqui e ali, vozes humanas, imperceptíveis. As únicas, ainda assim, capazes de perturbar o sibilante e desordenado som da urbe.

Chuck encostou-se ao tronco da maior árvore da rua, toda ela imponente na sua copa verde e espessa, sobranceira sobre os telhados das casas. Manteve-se na penumbra, camuflado. Forçava-se a uma respiração lenta e cadenciada, ordenando ao coração que, também ele, não provocasse qualquer tipo de ruído que pudesse denunciar a sua presença. Olhou de soslaio, tentando perscrutar o interior de uma das casas. Casa que conhecia bem e da qual mantinha, depois de tantos anos, uma presente e, apesar de tudo, jovial memória. Aproveitava a oportunidade de um intervalo nos cortinados, meio abertos, tentando aperceber-se do que se passava no interior da habitação. Três divisões iluminadas, em tons de amarelo, duas no piso térreo e uma no piso superior. Em baixo, a sala de estar ou a cozinha, sem certeza, pois não conseguia ver bem. Em cima, um dos quartos de dormir, por certo. Ninguém à vista.

Incomodava-o o cheiro fétido no ar a pasta de papel celulósica. O brilho das luzes da única fábrica ainda em activo na cidade, inaugurada, curiosamente, no dia em que Chuck completara cinco anos de idade, enfeitava o manto azul-escuro, que dominava o horizonte. Aposto contigo como não demoro dez minutos a entrar lá dentro, disse. Promessas, ouviu. Soltou um pequeno esgar que lhe moldou o rosto de forma assimétrica. Dentes brancos e cuidados, irrompendo de um dos cantos da boca. Sabes bem que se quisesse já o tinha feito, disse. És um cobardola, e já só falta mesmo mijares-te pelas calças abaixo, ouviu. Cravou, descontrolado, as unhas de uma das mãos, no tronco da árvore. Esmagou os maxilares, um contra o outro, até ouvir um ranger de dentes aguçado. Se me continuas a foder a cabeça, ainda te mostro mas é a ti, primeiro, quem é o cobardola, disse. Uma gargalhada. Uma, duas, três, quatro horas. Chuck, em discurso directo. Depois da conversa, reconfortado, partiu. Esperavam-no, noutro lado.

2 comentários:

anouc disse...

Está muito bom. Não conhecia esta tua faceta.

Parabéns*

Unknown disse...

Gostei muito e aguardo a continuação.