segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Uma Ponte Constrói-se De Um Lado Para O Outro!

Acordei tarde. Nem é costume mas, aconteceu-me. É muito estranho, pois para um defunto como eu, sentir o coração bater assim, daquela forma desalmada e estrondosamente forte, só poderia ser sinal de que este dia teria algo de muito especial. Se calhar estava era a precisar de voltar a sentir isto. Desde que morri que a coisa tem andado muito calma em termos de tensão arterial. Há meses que os pulsos pareciam troncos e as carótidas tubagens de esgoto entupidas.

Apeteceu-me comprar flores. Logo eu que nunca me dei bem com flores por causa da sinusite, e, para morto, tentar suicidar-me com um ataque de espirros pareceu-me uma perda de tempo. Agora já é noite. O dia correu bem e fiz tudo o que me apeteceu. É destes que eu preciso para passar pelo óbito sem sobressaltos de maior. Sorri bastante, por isso sinto-me muito leve e feliz.

Agradam-me as boas notícias e foi impossível ficar indiferente ao facto de saber que, finalmente, lá acabaram por encontrar o corpo do Senhor Marcolino, o vizinho do segundo esquerdo. Sempre fui da opinião que seria pouco provável que um tetraplégico conseguisse desaparecer durante dez anos sem dar nas vistas, mas enfim. Foram dar com ele deitado na cama pelo que, imagino, deve ter falecido quentinho e sem frio. Ainda bem. Emociona-me isto dos velhinhos que morrem. Embora seja da opinião que, para exemplo futuro, o deviam retalhar aos pedaços e mandar à jaula dos crocodilos. Morrer assim, de um momento para o outro e sem avisar, só denota uma enorme falta de educação da parte dele.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Estranho É Chegar A Algum Lado E Olhar Apenas Para Onde Se Quer!

Inventar é uma coisa linda. Fosse eu capaz de inventar algo que se visse ou se prestasse ao jeito, morreria feliz uma segunda vez, pois que da primeira morri sem vontade nenhuma e sem ninguém me avisar, e já dei por isso tarde e sem nada conseguir fazer para o impedir. Por dificuldade flagrante de raciocínio, longe de mim ser capaz de imaginar, já, de um momento para o outro ou em fracção de segundo, que deslumbrante engenhoca sairia deste pedaço de cérebro queimado e ressequido. Vou, portanto, e entretanto, reconhecendo o mérito aos outros, salivando de espanto e roendo as unhas de inveja.

Ontem encomendei dois Baby Reborn cá para casa. O conceito é ultra chique, modernaço e lavadinho. Ter mas não ter. Abraçar a paternidade com ambos os dois braços em simultâneo e ao mesmo tempo. Privar-me de tudo e continuar a fazer as coisas como até aqui. Como não sou de cerimónias, nem parvo, pedi dois exemplares com os olhos cerrados. O objectivo é evitar as berrarias e continuar a ouvir música apenas quando tenho vontade, sem ficar à mercê da música dos outros. É claro que vêm os dois sem bracitos, pois assim, à partida, colados com significante nível de deficiência motora, o risco de virem a mexer nos livros ou a partir alguma coisa de valor é reduzido a um nível muito próximo do zero absoluto.

Tentei que um deles fosse inspirado na figura de Hitler quando era mais pequeno, mas explicaram-me que o bigode não faz parte da lista de combinações disponível, e que mandar fazer um assim à pressa, à medida e personalizado, levaria meses e ficaria bem mais caro. Ainda não sei ao certo mas acho que um vai chamar-se Tó e o outro vai ser qualquer coisa muito próxima e familiar de um Zé. Tó Zé ou Zé Tó, o que importa é que vêm a caminho e eu já ando a pintar as paredes do quarto. Podia haver alguém capaz de inventar uma mistura de cores bem mais alegre e bem-disposta, porém parece-me que o verdadeiro problema é já não haverem inventores como havia antigamente.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Mostrou-me As Agulhas Assim Que Falei Do Dedal!

Sou um gajo do óbvio, uma alma penada vendida que assumiu os seus pecados antes de entrar no Inferno, e que por aqui tem ocupado o seu cantinho, sem grande alarido. Vou passar férias ao Egipto. Decidi hoje! Acordei e percebi que mais vale ir a algum lado a não ir a lado nenhum. Com um pouco de sorte ainda me pagam a viagem e fazem de mim exemplo vivo de que, afinal, tudo está bem quando acaba bem. As pirâmides não foram abaixo e as múmias continuam enroladas em gaze. Sim, convidem-me e eu vou. Paguem-me a viagem e piro-me daqui a cinco minutos. E demito-me da loja, se for necessário.

Há pessoas inteligentíssimas no universo televisivo e com as quais aprendo várias coisas, diariamente. Acho que nasci para aprender e agora, depois de morto, como a minha concentração aumentou para mais do dobro, tento olear a minha cultura geral o mais que consigo. A Carolina Patrocínio tem um mundo só dela e anda a mostrá-lo na televisão. Tudo muito animado, tudo muito eclético. Em dia de passeio à Vila de Sintra, partilha ela, para meu deleite, que ouviu dizer que Palácio da Pena é mais bonito que o próprio Palácio de Versalhes. Ele mesmo, o verdadeiro.

Quando tinha pernas e ainda conseguia ir sozinho até ao Palácio de Queluz, eu também achava sempre que aqueles jardins eram bem mais bonitos do que as arcadas do Taj Mahal. Ou, já agora, e ainda dentro do mesmo estilo, que os salões e as fachadas frontais eram bem mais deslumbrantes que a entrada principal da Pirâmide de Quéfren.