
Para quem tem um horário considerado
normal de trabalho, o simples facto de ter de ir levantar uma carta registada aos Correios pode ser uma valente dor de cabeça. E como se por vezes já não bastasse o ter de ir aos Correios, ainda ter d
e ir ao Banco, à Junta de Freguesia, aos Serviços Municipalizados ou às Finanças, tudo isso junto pode ser o chamado
cabo dos trabalhos.
Ao fim dos primeiros quinze minutos na fila, à espera de sermos atendidos, começamos a soprar para o ar e a abanar uma das pernas como se
estivéssemos num concerto. Ao fim da primeira meia hora já só pensamos
"porquê eu, por que raio tinha de me acontecer a mim?". E depois da primeira hora completa de espera, então, já chamamos nomes ao funcionário e dizemos o quão este é antipático, desinteressado, incompetente, isto e aquilo... Em suma, é um
stress e um desespero.
Mas desenganem-se se pensam que a culpa é do Sistema, ou do coitado do funcionário, que até nem tem hora de almoço fixa e que não pode ver a Selecção no Europeu/Mundial sempre que os jogos são a meio da tarde. Nada disso, os verdadeiros culpados dão pelo cognome de "Reformados". Sim, esses mesmos. Esses de quem se passa a vida a falar que não têm dinheiro nem para um café na Mexicana.
Como são pessoas tão atarefadas e cheias de compromissos
inadiáveis, nomeadamente, o de não poderem perder nem dois segundos da Praça da Alegria, toca de levantar da cama às cinco da manhã e ir assentar arraiais à porta da Repartição de Finanças. E é vê-los ali, uns atrás dos outros, todos
encarquilhadinhos, faça chuva ou faça sol: "
Ai que me doem as costas", "Ai que o reumático isto", "Ai que o governo é mau", "Ai que o gato fugiu", "Ai se o Salazar fosse vivo"...Então mas o objectivo de se estar reformado não é mesmo o de não fazer nenhum? O de deitar tarde e levantar ainda mais tarde? O de tomar o pequeno almoço à hora do almoço, o almoço à hora do jantar, e o jantar à hora da
Seia?
Avós deste nosso país, deixem lá isso de madrugar para quem tem de ir trabalhar e não pode chegar atrasado ao emprego. Não se esqueçam que quando se diz
"de manhã", se pode estar a falar numa qualquer hora até à hora de almoço. Assim sendo, aproveitem a caminha, o cobertor e o saco de água quente. Tomem o vosso
cafézinho descansados lá para meio da manhã e depois, então, se acham que não podem viver sem isso, vão lá chagar a cabeça aos tipos das finanças antes da hora de almoço.
Ah, e não se esqueçam, ou se acham que se esquecem, escrevam num daqueles papeis pequeninos, de cor amarela, daqueles que se colam aos dedos, o seguinte;
"depois do almoço há uma coisa que se chama Tarde, onde, normalmente, tudo está aberto e pronto para nos receber..."