quarta-feira, 30 de março de 2011

As Pedras Da Calçada Não Alimentam Ninguém!

Sou pouco dado a superstições, tenho-o dito repetidamente. Aliás, e sem a menor sombra de dúvida, para tirar as teimas de uma vez por todas, uma espinha espetada nas amígdalas produz em mim um efeito mil vezes mais radioactivo do que um gato preto que se atravesse no meu caminho; para não falar de uma unha do pé encravada ou num pêlo indisciplinado que se enrole à volta dos testículos. Todavia, ao que vejo, há condutores que são imensamente supersticiosos, muito mais do que eu alguma vez seria, caso fosse adepto dessa tara e mania.

Pois esses ases do volante devem acreditar piamente que a aselhice é coisa para ser resolvida assim, com duas de cal e uma de areia, abençoado seja o chassi, o pneu suplente e o conta-quilómetros. Abrir os olhinhos, travar e acelerar que está certo é aspecto secundário e questão de pormenor nesse maravilhoso reino divino da condução. É o terço a baloiçar no espelho retrovisor que vai resolver na hora do aperto, que o resto é conversa e que se lixe. Está visto, pois está claro, que prefiro infinitamente respirar sem resistências, caminhar do Inferno ao Céu se for preciso, e continuar a sorrir de cada vez que mexo em cada uma das duas glândulas do escroto.

domingo, 27 de março de 2011

Aguarrás Não Se Emborca Em Copos De Cristal!

Eu até que nem queria falar disto aqui, mas, depois de tantos motivos dados, pouco mais me resta que deixar-me levar, rendendo-me às evidências mais do que evidentes. As eleições de ontem, no SCP – clube pelo qual nutro um adorável ódio de estimação –, corresponderam, em larga escala, às minhas melhores expectativas. Se, por distracção ou coincidência, com isso tivesse sonhado, estaria, com certeza, o ramalhete ao nível de um sonho erótico e dos bons, daqueles que não chateiam, mesmo que se acorde antes da hora H.

Primeiro, foram os debates animados e lérias e conversas para inglês ver. Planos faraónicos e estratagemas manhosos. Depois, não faltaram as acusações desesperadas, os milhões de notas a esvoaçar e os planos de investimento fabulosos. E os jogadores galácticos e os treinadores de nível mundial, blá blá, blá blá, blá blá. Houve bocas foleiras, gritaria, porrada, encontrões e tentativas de invasão. E, nos dias que correm, o terem demorado até às cinco da manhã para contarem catorze mil e tal votos, foi a confirmação que eu precisava para constatar que os sportinguistas não percebem nada de matemática.

Agora que já se sabe quem foi o vencedor, fico descansado, também, por aquele assunto do chinês não ir para a frente. De tudo o resto, admito, era aquilo que estava a meter-me mais confusão. Não bastasse já a invasão de restaurantes, ex-restaurantes, lojas, ex-lojas e armazéns chineses, dar por mim preso na segunda circular, enfiado no meio de camionetas e camionetas cheias deles, acabadinhos de chegar, ainda por cima para irem ver jogar o Sporting, isso sim, seria bem pior do que ver um filme do Bruce Lee, dobrado em brasileiro . É caso para dizer: pala começále, complem o melhole jogadole poltuguês, que pode sele que ajude.

sábado, 19 de março de 2011

Mataram O Coelhinho Da Páscoa!

O mundo não corre a nosso favor. Há dias, toneladas e toneladas de sardinhas suicidaram-se em conjunto, perto da costa dos EUA, certamente tentando evitar a sina, mais que provável, de virem um dia a acabar num pratinho, rodeadas de pimentos, num qualquer restaurante português. A ideia do tostamento forçado já devia ser sobejamente deprimente e, ainda para mais, em Portugal, não deve mesmo ter dado para aguentar.

O Japão está feito em cacos e nós em cacos estamos. Com as devidas ressalvas e relatividade abstracta, como é óbvio. Eles estão melhor, mesmo assim. Continuam a ter a Mitsubishi, a Toyota, a Hyundai, a Sony, a Kawazaki, a Honda, a Samsung, a Nintendo, a Toshiba, a Fujitsu, a Canon, a Hitachi, a Sanyo. Ali pelo Chiado a doidice é a Pasta Medicinal Couto e o Restaurador Olex. Visão empresarial. Vamos passar a beber sumo de laranja ao pequeno-almoço. Isto, claro, até o fígado acordar a contorcer-se com dores e voltarmos todos, outra vez, a pedir água das malvas com um toque de fragrância a pétalas de rosa. Redondinhos como os berlindes, é assim que somos.

domingo, 13 de março de 2011

Um Túnel Que Me Leve Rápido De Ontem Para Amanhã!

Percebi, de imediato, que havia perdido a massa anónima, os jovens professores, advogados, engenheiros, historiadores, enfermeiros, designers, arquitectos, policias, psicólogos, motoristas, empresários, cabeleireiros, pedreiros, soldadores, militares, psiquiatras, jornalistas, comerciantes, lojistas, entre tantos outros que agora nem me consigo lembrar. Porém, mais uma vez, repetindo outras manifestações em que, curiosamente, também não consegui chegar a horas, fui dar com os habituais e os do costume, os profissionais, os militantes, os viciados, os acérrimos, os que aparecem sempre, os queixinhas, os mais inteligentes, os iluminados, os eu é que sei, os está tudo mal, os quem me dera não ter nascido, os o problema são vocês.

Atendendo ao propósito em questão, para esses que ainda vi, a minha sugestão sincera e despegada é esta: tomar um banho por dia é importante, vestir uma roupa lavadinha ajuda a socializar, tirar as anilhas do nariz pode evitar acidentes mortais em elevadores apertados, ir à escola dá jeito, largar a garrafa da cerveja e pegar na picareta pode ser o princípio de alguma coisa, ler um ou outro livro sobre Comunismo Vs Capitalismo ajuda a aumentar a cultura geral, o dia de trabalho tem, no mínimo, oito horas completas de sessenta minutos e acordar às quatro da tarde pode ser um sinal grave de disfuncionalidade social,..., bem como andar com o cartão de crédito dourado do papá, escondido no bolso, é uma tamanha traição moral aos companheiros de degredo.

segunda-feira, 7 de março de 2011

É Duro Pensar Nas Garrafas Que Ainda Faltam Beber!

Seja eu atraiçoado pela falta de memória festivaleira, não recordo, na última década, tamanho frenesim em redor do vencedor do Festival da Canção. Mais agudo ou menos agudo, mais falsete ou menos falsete, mais cavaquinho ou menos cavaquinho, a música vencedora esteve sempre, a meu ver, dentro dos padrões considerados “normais” ou, dito de outra forma, aceitáveis para o evento em questão. Aquilo era aquilo e pronto, ajeitava-se, nós lá encaixávamos, ouvíamos, e, nem que fosse às escondidas, trauteávamos. O que, entenda-se, nem quer dizer que fosse o melhorzinho.

Mas até eu, que mais depressa acredito no regresso à Terra de nosso Senhor Jesus Cristo, a ver, um dia, a representante do cançonetismo luso vencer o Festival da Eurovisão – e não tem nada a ver com o pessimismo crónico que me afecta dia sim dia sim –, fiquei surpreendido com o desfecho do passado sábado, encerrada a votação e conhecido o vencedor de mais uma edição. Para falar a verdade, noutro contexto, até simpatizo com o formato, aparentemente naif; e dou umas gargalhadas e reajo às piadolas e tudo. Aquilo é engraçado, espevita o saudosismo e dá assim um certo ar de rebeldia chique.

Porém, na minha modesta, humilde e desinteressada opinião, a haver conclusões a tirar, nem devem essas passar pela parte musical. Sabemos que no pós-década de setenta, chegado o declínio e o descrédito do Festival, as melodias intragáveis e as letras melosas e absolutamente idiotas tornaram-se na rotina habitual. Pois o pior nem é o Jel e seus muchachos terem ganho o prémio mais cobiçado (até ele ficou encavacado). Mais depressa cortam os pulsos dez suicidas ao som do “Quando cai a noite na cidade”. Noto é que, como nação, estamos a afunilar pelas mais tenebrosas características dos países da América do Sul. Deixámos de acreditar e agora achamos que tudo serve para mostrar o descontentamento. Mas pode até ser que lá para Maio, na Alemanha, o júri vá na conversa e dê bastante ênfase à parte cénica do embrulho. À ceifeira eu dou doze pontos, pelo menos.

sábado, 5 de março de 2011

Três Quartos Daquilo Que Mais Me Apetecer!

Retido no trânsito, constatei, uma vez mais, que de pouco vale querer mexer muito nas coisas. Há uns quantos anos, por esta altura, miúdo, andava eu preocupado em arranjar um casaco verdadeiramente ruçado, capaz de imitar o casaco ruçado do Buffalo Bill, ou, então, de encontrar uma capa verdadeiramente azul, capaz de imitar a capa azul do Super-Homem. Tudo como se aquilo fosse o maior e mais preocupante problema do mundo, e não deixando eu a coisa por menos, sendo o Buffalo Bill o mais ágil dos mais ágeis pistoleiros do Oeste, e o Super-Homem o mais forte dos mais fortes super-heróis, da banda desenhada, provavelmente, pensando bem, até seria.

Ontem, como há uns anos, nas imediações duma escola primária, vi uma princesa e um Homem Aranha e um Zorro e um Dragon-Ball e um Noddy e um dinossauro e um rei e um Hulk e um mosqueteiro e uma enfermeira e um policia e um ladrão e um coelho e uma rã e um soldado romano e um macaco e um ninja e uma Branca de Neve, entre outros. E hoje os jornais dizem que o Pedro Santana Lopes admite fundar um novo partido. E até podíamos tentar mudar o mundo e coisa e tal, mas, para quê darmo-nos a esse trabalho se, pelo menos, rir ainda é algo que nos faz bem? Pois há coisas que não mudam nem nunca hão-de mudar... É Carnaval e ninguém leva a mal.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Uma Ponte Constrói-se De Um Lado Para O Outro!

Acordei tarde. Nem é costume mas, aconteceu-me. É muito estranho, pois para um defunto como eu, sentir o coração bater assim, daquela forma desalmada e estrondosamente forte, só poderia ser sinal de que este dia teria algo de muito especial. Se calhar estava era a precisar de voltar a sentir isto. Desde que morri que a coisa tem andado muito calma em termos de tensão arterial. Há meses que os pulsos pareciam troncos e as carótidas tubagens de esgoto entupidas.

Apeteceu-me comprar flores. Logo eu que nunca me dei bem com flores por causa da sinusite, e, para morto, tentar suicidar-me com um ataque de espirros pareceu-me uma perda de tempo. Agora já é noite. O dia correu bem e fiz tudo o que me apeteceu. É destes que eu preciso para passar pelo óbito sem sobressaltos de maior. Sorri bastante, por isso sinto-me muito leve e feliz.

Agradam-me as boas notícias e foi impossível ficar indiferente ao facto de saber que, finalmente, lá acabaram por encontrar o corpo do Senhor Marcolino, o vizinho do segundo esquerdo. Sempre fui da opinião que seria pouco provável que um tetraplégico conseguisse desaparecer durante dez anos sem dar nas vistas, mas enfim. Foram dar com ele deitado na cama pelo que, imagino, deve ter falecido quentinho e sem frio. Ainda bem. Emociona-me isto dos velhinhos que morrem. Embora seja da opinião que, para exemplo futuro, o deviam retalhar aos pedaços e mandar à jaula dos crocodilos. Morrer assim, de um momento para o outro e sem avisar, só denota uma enorme falta de educação da parte dele.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Estranho É Chegar A Algum Lado E Olhar Apenas Para Onde Se Quer!

Inventar é uma coisa linda. Fosse eu capaz de inventar algo que se visse ou se prestasse ao jeito, morreria feliz uma segunda vez, pois que da primeira morri sem vontade nenhuma e sem ninguém me avisar, e já dei por isso tarde e sem nada conseguir fazer para o impedir. Por dificuldade flagrante de raciocínio, longe de mim ser capaz de imaginar, já, de um momento para o outro ou em fracção de segundo, que deslumbrante engenhoca sairia deste pedaço de cérebro queimado e ressequido. Vou, portanto, e entretanto, reconhecendo o mérito aos outros, salivando de espanto e roendo as unhas de inveja.

Ontem encomendei dois Baby Reborn cá para casa. O conceito é ultra chique, modernaço e lavadinho. Ter mas não ter. Abraçar a paternidade com ambos os dois braços em simultâneo e ao mesmo tempo. Privar-me de tudo e continuar a fazer as coisas como até aqui. Como não sou de cerimónias, nem parvo, pedi dois exemplares com os olhos cerrados. O objectivo é evitar as berrarias e continuar a ouvir música apenas quando tenho vontade, sem ficar à mercê da música dos outros. É claro que vêm os dois sem bracitos, pois assim, à partida, colados com significante nível de deficiência motora, o risco de virem a mexer nos livros ou a partir alguma coisa de valor é reduzido a um nível muito próximo do zero absoluto.

Tentei que um deles fosse inspirado na figura de Hitler quando era mais pequeno, mas explicaram-me que o bigode não faz parte da lista de combinações disponível, e que mandar fazer um assim à pressa, à medida e personalizado, levaria meses e ficaria bem mais caro. Ainda não sei ao certo mas acho que um vai chamar-se Tó e o outro vai ser qualquer coisa muito próxima e familiar de um Zé. Tó Zé ou Zé Tó, o que importa é que vêm a caminho e eu já ando a pintar as paredes do quarto. Podia haver alguém capaz de inventar uma mistura de cores bem mais alegre e bem-disposta, porém parece-me que o verdadeiro problema é já não haverem inventores como havia antigamente.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Mostrou-me As Agulhas Assim Que Falei Do Dedal!

Sou um gajo do óbvio, uma alma penada vendida que assumiu os seus pecados antes de entrar no Inferno, e que por aqui tem ocupado o seu cantinho, sem grande alarido. Vou passar férias ao Egipto. Decidi hoje! Acordei e percebi que mais vale ir a algum lado a não ir a lado nenhum. Com um pouco de sorte ainda me pagam a viagem e fazem de mim exemplo vivo de que, afinal, tudo está bem quando acaba bem. As pirâmides não foram abaixo e as múmias continuam enroladas em gaze. Sim, convidem-me e eu vou. Paguem-me a viagem e piro-me daqui a cinco minutos. E demito-me da loja, se for necessário.

Há pessoas inteligentíssimas no universo televisivo e com as quais aprendo várias coisas, diariamente. Acho que nasci para aprender e agora, depois de morto, como a minha concentração aumentou para mais do dobro, tento olear a minha cultura geral o mais que consigo. A Carolina Patrocínio tem um mundo só dela e anda a mostrá-lo na televisão. Tudo muito animado, tudo muito eclético. Em dia de passeio à Vila de Sintra, partilha ela, para meu deleite, que ouviu dizer que Palácio da Pena é mais bonito que o próprio Palácio de Versalhes. Ele mesmo, o verdadeiro.

Quando tinha pernas e ainda conseguia ir sozinho até ao Palácio de Queluz, eu também achava sempre que aqueles jardins eram bem mais bonitos do que as arcadas do Taj Mahal. Ou, já agora, e ainda dentro do mesmo estilo, que os salões e as fachadas frontais eram bem mais deslumbrantes que a entrada principal da Pirâmide de Quéfren.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Mudaram O Triângulo Das Bermudas E Não Avisaram Ninguém!

Percebi, finalmente, que a imbecilidade é uma condição humana estranhíssima e que pode fazer-se notar tanto sob o efeito do álcool como fora dele. Um imbecil, daqueles verdadeiros, que sente a batida diferente no coração, é um indivíduo anormalmente convicto naquilo que faz. Pode até não ter cartão de sócio mas também não precisa, pois quando age imbecilmente fá-lo sempre por amor à camisola, como se já tivesse as cotas regularizadas, com pagamento por débito directo, até ao final deste ano e do próximo.

Pela força do hábito, um imbecil não se dá à oportunidade de agir de forma diferente. Ele age sempre da mesma maneira, duas e três vezes consecutivas, trabalhando árdua e consecutivamente para que, sem desprimor para com o resto dos seus amigos imbecis, consiga um dia ascender à categoria dos abestalhados. Ou seja, é burro, relincha e faz força. Imaginar um imbecil a tornar-se numa besta-quadrada é, portanto, uma imagem bonita que me faz lembrar o cheiro a lírios frescos, serigrafias de pombas brancas e o som de cantos de cisne.

De facto, um imbecil com tiques de besta-quadrada é coisa para estar ao nível dum coito interrompido involuntário. Como se um Tsunami pudesse ser o que nós quisessemos, sabendo de ante-mão que, no fim das contas feitas, não passa de uma birra da mãe natureza quando nos quer rebentar com as férias grandes. Já agora, se algum dia a idiotice der direito a expatriação para o planeta mais longínquo do Sistema Solar, havemos todos de concluir que, afinal, era a Zon que tinha razão. O que é foleiro hoje nunca foi flor que se cheire no passado, e estar aqui com birrinhas de menino ofendido é querer andar a dourar a pílula com laca ou banha de porco fora do prazo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Graças A Deus Que O Povo Não Existe!

Comi um chocolate antes de começar a escrever (isto). O chocolate adoça a boca e a língua e pode, se comido na dose certa, serenar o espírito e evitar palavras mais fortes e atitudes mais irreflectidas. Não quero chocar ninguém nem isto se trata de uma vingança pessoal. Não lavo roupa suja na praça pública. O que é meu é meu e ninguém tem nada a ver com isso. Se quiserem saber mais liguem-me para o fixo, que está pago e precisa de uso. E até demoro pouco tempo a explicar. Quando derem por ela estão de volta aos saldos, atulhados em camisolas e cachecóis.

Pode até ser tudo uma mentira pegada. A minha verdade não é necessariamente a vossa, por isso. Ontem sim, hoje não. Ontem vi, hoje fechei os olhos. Ontem ouvi tudo, hoje sou surdo que nem uma porta. Ontem estive lá, hoje não me mexo vai para anos. Ontem era, hoje já não sou mais. Ontem quis, hoje já nem penso nisso. Ontem conhecia, hoje nem nunca os vi mais gordos. Ontem mostrei onde foi, hoje levaram-me lá pela mão.

Calma! Alto! Stop! Ponto de situação! O que sei é que este rabinho invisível mantém-se intacto vai para mais de trezentos anos, e que ao Restelo só fui uma vez e foi para ver o Belenenses descer de divisão. É óbvio que de Elvas nem bom vento nem bom casamento e que num país como o nosso, as Forças Armadas são mero objecto de decoração. Preguem o tipo à cruz, esqueçam o FMI e chamem de volta o Dom Diniz, Hugo é nome de sonso e quem tem razão é o meu amigo Jorge; há gajos que drogam-se e não é pouco.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Há Gelados Que Lambidos De Alto A Baixo Sabem Melhor Que As Pirâmides Do Egipto!

Na altura em que ainda tinha dentes, e conseguia fazer uso deles como qualquer pessoa normal, cheguei a votar duas e três vezes num único dia. E melhor, sem sinal de dificuldade. Como nunca ninguém me corrigiu o acto ou, de uma forma mais firme e determinada, ousou sequer condenar a minha atitude; habituado, tentei novamente, no domingo passado, repetir a proeza, voltando a dar uso à caneta, em triplicado. Impune perante tal ousadia, durante anos seguidos, desconheço, ainda assim e até à data, castigo ou punição, merecida ou nem por isso, pelo que, useiro e vezeiro, lá tentei a sorte, outra vez.

Talvez as coisas tenham sido sempre assim porque, simplesmente, tinham mesmo de ser assim. O que não espanta que haja leis que falam sobre isso. Dos azares e das coincidências, digo. Mas desta vez aconteceu tudo de uma forma bem diferente e a resistência foi consideravelmente maior. Ora tive de explicar que para mim, o facto de estar morto é já um dado adquirido, e se o novo cartão atrapalha a vida aos vivos, é compreensível que também atrapalhe a vida aos mortos como eu. Quer dizer, pelos vistos, o problema até nem foi o facto de eu estar morto, porque isso estava-se mesmo a ver e bastava olhar para mim de alto a baixo.

Já a moça à minha frente, que atesto eu por minha honra estava bem vivinha da silva (como bom fantasma que sou, trespassei-a de um lado ao outro para lhe certificar as carnes), ficou, também ela, ali a saber, na hora, que padecia de uma doença rara e que ataca em dia de eleições presidenciais. Afinal, acabara de morrer instantes antes e ainda não tinha dado por nada. O que é uma chatice andar a fazer papel de morto vivo. Coisa que acontece bastante comigo. Que fosse a velhota atrás de mim, já mais para lá do que para cá, eu ainda entendia, mas aquela adorável moça? Porque há lições e ensinamentos que se aprendem todos os dias, pois uma delas é o de não acreditar quando alguém fala em vida para além da morte.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Ali Pode Ser Tão Bom Como Em Qualquer Outro Lugar!

Já devem ter reparado - e se não repararam, esforcem-se, que o problema é vosso -, que sou um tipo que evita polémicas. Que coisinha mais arreliante e horripilante andar sempre no diz que disse e, bla bla bla bla bla bla, isto aquilo e aqueloutro. Bem, não é suportável esse género de postura, digo; pronto e caso arrumado. Os dias são muito melhor assim, como o de hoje. Acordar cedíssimo, fora de casa, e reflectir, reflectir muito.

Ofereceram-me um par de meias e eu a precisar de lençóis brancos. Até tinha avisado que estava cada vez mais difícil conseguir assustar alguém com este lençol encardido, mas, uma vez mais, ninguém me ligou nenhuma. Fizeram o que lhes deu na veneta e quem saiu a perder fui eu. Para a próxima peço um cesto de pimentos e pode ser que me ofereçam uma tonelada de chocolates Ferrero Rocher. Estão na moda e não apenas para comer.

A Lisete está grávida, pela terceira vez este ano, e diz que o rebento vai chamar-se Estringo Cópiorrino. Ainda sem recordar o quê, a mim faz-me lembrar algo artístico, com glamour e soa-me muito bem. Mas a Lisete é uma mulher humilde e simples e tentou convencer-me que é apenas um trocadilho com as palavras estetoscópio e otorrinolaringologista. Como se eu fosse parvo. É tão querida, ela. Ficou preocupada e convencida que a iria acusar de estar apenas a querer dar nas vistas.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Foi Ontem Que Disse Tudo E Já Não Me Lembro De Nada!

Talvez este seja um conceito novo, fashion, zen, cool, super-bem, fantástico, mas, na verdade, não sei com total certeza. Desconheço o propósito que levará alguém a ir à televisão falar de quem um dia lhe morreu. Ou melhor, corrijo, posso até ver, entendendo o masoquismo e a estupidez como direitos fundamentais, consagrados na Constituição da República. De uma maneira geral, aborrece-me saber que a Sr.ª Manuela morreu de ataque cardíaco e que tinha diabetes mas que estavam controlados, e ligo pouco se me disserem que o Sr. Clemente ficou-se de um segundo para o outro, enquanto mijava atrás de um eucalipto, durante um piquenique na Serra da Arrábida; e que tinha diabetes mas que estavam controlados.

Claro que, desmancho-me a rir quando abusam de mim e me dizem que a Sr.ª Estela flipou a ver o Quem Quer Ser Milionário, engasgadíssima com uma piada do Malato, sobre lançar cimento em pó nos ventiladores do metro; e que tinha diabetes mas que estavam controlados. Coitadinhos do Sr. Amílcar e do Sr. Cruz, que deixaram-se empacotar numa aula de ginástica para a terceira idade, e tinham diabetes mas que estavam controlados. Eu até que convidava a Fátima Lopes para ir beber um copo. Assim uma coisa rápida, sem grande transtorno. Fosse ela desculpar-me o facto de proibir as Caipirinhas, as Cuba Libre ou os Caipirão, tudo por causa da diabetes.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

É Afogar Em Vinho Os Idiotas Que Nos Roubam O Ar!

Ando com ideias de cortar as unhas. Disseram-me que é uma coisa normal e que pode dar jeito em muitas e diferentes situações. A última vez que cortei as unhas era ainda feito de carne e osso, e, realmente, pensando bem, aquilo de deixar os cascos crescer sem os decepar atrapalhava-me bastante. Há dias, no meu aniversário, percebi que andar de unhas cortadas pode ser bem melhor do que fazer balões com pastilhas de framboesa. E agora que comprei um corta unhas como deve de ser, daqueles mesmo bons, Made in Taiwan, talvez esteja, finalmente, na altura de experimentar sofrer com tal tortura masoquista.

Na loja não temos computadores nem blocos de papel; o que ajuda. É por isso que as unhas grandes nunca foram problema. Eu uso uma faca para cortar o pão e o queijo e o fiambre. Ainda que às vezes me assolem ideias parvas, para experimentar outras técnicas de corte. Um dia tentaram assaltar-me à porta da loja, ao final duma tarde quente de Verão, e eu vazei a vista a um deles, mas com um lápis acabado de afiar e que nunca tinha sequer sido usado para escrever e que, por ironia, me preparava para deitar ao lixo. Na loja não precisamos de lápis pois não temos onde escrever. Principalmente agora, que o patrão avisou que despedia todos os que apanhasse a tomar notas nas paredes.

O meu pai vai vender o negócio do Comboio Fantasma e eu acho mal. Ele diz que já ninguém tem medo de comboios fantasma porque agora, medo medo, as pessoas só têm quando se cruzam com alguém na estrada a conduzir um Mercedes 190. O meu pai diz que a própria Mercedes anda envergonhada por ter de admitir que algum dia foi responsável por fabricar um carro como aquele, tão cobiçado por velhos senis e de carta de condução caducada. Por um lado até percebo a ideia mas, por outro, gostava de pensar que um Mercedes 190 é um carro como outro qualquer, que apenas teve o azar de um dia ter sido escolhido para carro de praça. Se calhar corto as unhas só amanhã. A Júlia voltou a queixar-se das baratas lá no restaurante.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O Sol Só Atrapalha Em Dias De Tempestade!

Comecei bem o dia. Em grande, mesmo. Fresco e fofo. A abrir, espanquei o meu vizinho do segundo esquerdo, mas uma coisa com estilo; um encontrão, discreto, ao sair do elevador. Que história é essa de se pôr para ali de boca fechada, a viagem toda, sem sequer dizer água vai nem água vem? Já sabem como é, metem-se comigo levam logo. Pior que a loja estava uma desgraça. Uma confusão pegada. Ora entra um, ora entra outro. Não há horas para nada e não há quem meta ordem naquilo. O patrão foi pra Bruxelas e toca de espetar com o sinal de fechado às dez da manhã. Não há paciência.

O almoço até nem foi mauzinho de todo. É verdade que preferia ter comido peixe, mas, as almôndegas eram redondinhas e enganavam bem. Depois mordi a Gertrudes na orelha porque para mim não há cá essas coisas do dizer que sim e depois afinal até nem dá jeito. Distraído, com a ponta dum cigarro, deitei fogo à tese de doutoramento do Apolinário. Desconhecia que o gajo não se dava bem com os computadores, e que andava a escrever aquilo tudo à mão, desde 1995. Mas ele é dos que acredita que o mundo termina para o ano e lá acabou por encarar o desaire na boa, resignado.

Eu nem queria mas tive de pisar o pé ao filho do senhor que estava à minha frente na fila do supermercado. Acho que o miúdo só queria que eu lhe dissesse adeus ou lhe fizesse uma festa no cabelo. Só que estes exemplos de excesso de confiança não me agradam mesmo nada, e por vezes há que vincar o devido afastamento, na altura certa. Bem vistas as coisas, ao longo do dia, em jeito de balanço, talvez pudesse ter feito uma ou outra coisa de modo diferente. Mas, como prova de boa fé, até ir para a cama, ainda vou escrever umas cartinhas bonitas a pedir desculpa a esta malta toda. Afinal de contas, errar é humano, e eu até sou um gajo muito porreiro, muito mesmo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sou Eu Contigo E Tudo Ao Mesmo Tempo!

Reflecti bastante até chegar a esta conclusão, e quando me mentalizei da dilacerante realidade, fiquei de rastos e com o coração destroçado. Ainda assim, apesar do desgosto sentido, primeiro, preciso de confessar uma coisa. Eu nunca chorei nem nunca senti piedade. Nunca me emocionei nem nunca me deixei tocar por coisa alguma. Matei pombos à chumbada e foi para o lado que dormi melhor. E quando alguém me contou que tinha envenenado o vizinho, reformado, para lhe ficar com a pensão, soltei uma gargalhada e perguntei o que se ia comer ao jantar. Já bati em velhos, mulheres e crianças. E sempre que me dá jeito cuspo no elevador, se não estiver para engolir a gosma, provocada pelo tabaco. Manias. Só manias.

Eu tenho um telefone que não uso há meses e já nem sei sequer como se liga. Tem botões e tem cores e tem números que devem ter lógica se forem pressionados. A lógica que não vejo em ter quatro canais de clubes desportivos a transmitir futebol de manhã, à tarde e à noite. E outros que mostram fotografias de programas que faleceram assim que o ano se finou também. Este ano ainda não sei se voto porque, verdade seja dita, não conheço ninguém que alguma vez tenha votado em mim, ou que esteja na disposição de o vir a fazer. Não haveria cadeira capaz de aguentar comigo se me candidatasse e me convidassem para um debate televisivo. Amanhã celebro o meu aniversário e concluo que é absolutamente natural esta ligeira irritação. Ando a envelhecer um pouco todos os dias e começo a ter inveja e a não compreender por que raio, depois de tantos anos, continua igual e ainda não morreu, o cabrão do avô cantigas.

sábado, 8 de janeiro de 2011

A História Que Nunca Aconteceu!

Percebo pouco de prognósticos e, em abono da verdade e da minha sustentabilidade emocional, enquanto Ser racional não quero perceber muito mais. Ora se um complexo “o futuro a Deus pertence”, para mim, vale tanto quanto escolher entre um bife da vazia ou um bife de porco, um copo de vinho ou uma caneca de cerveja, admito que, ainda assim, por pressuposta oposição, também não será a ver episódios da Vila Faia, na RTP Memória, que a coisa se vai endireitar.

Infelizmente, à nascença, não fui abençoado com nenhum dom em particular. Muito menos especial. Geneticamente sou um desastre; de um lado recebi joanetes e do outro uma barriga com requintes de balão de hélio insuflável. E os anos têm passado por mim de uma forma rápida, determinados a comprovar as mais sólidas e inovadoras teorias da evolução da espécie. Da palmada no rabo aos sete palmos de terra. Assim, num ápice. Ceguinho, ceguinho. Não enxergo a dois metros dos olhos.

Palpita-me, porém, que os próximos dias vão ser agitados no mundo das revistas “del corazon”. Agora sim é que a coisa vai ferver. Tiragens e vendas fabulosas. Finalmente a bomba atómica tão desejada. Melhor que descobrir uma página da Playboy no lado oculto da lua. Melhor que encontrar um panfleto da Liga Contra o Cancro do Pulmão no escritório do presidente da Tabaqueira. Melhor que chamar estúpido ao Ministro das Finanças e enfiar dois palitos nos olhos do Primeiro-ministro. As notícias correm depressa e as novas vêm do outro lado do Atlântico, de Nova Iorque. Eu até diria que vai ser preciso ter coragem para aguentar, mas, não querendo ser acusado, mais tarde, de vir a deixar ficar a coisa por menos. Sei perfeitamente que o que vai ser preciso, mesmo, é continuar a ter tomates.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Sempre Foi Melhor Assim Do Que Assado!

Se algum dia o Governo do nosso país, por obra e graça do Espírito Santo, decidisse assim, sem mais nem menos, elaborar uma Lei abjecta e atroz, por exemplo, que versasse sobre a obrigatoriedade dos homens passarem a ser portadores de uma bolsa a tira colo para transporte dos documentos, preta ou às corzinhas, ah pois que eu seria o primeiro a berrar e a berrar e a berrar e a berrar mesmo muito, ficando chateado e beliscado na minha dignidade e residual vaidade. Ora que o Presidente da Republica vetasse a Lei era o mínimo exigido, e que os tribunais dessem o aval que faltasse assim seria de esperar; coisa que nos deixaria a todos mais descansados e serenos, os últimos resistentes, a tamanha ignomínia.

Sim, o nosso PR é firme nas convicções e ágil na hora do veto. Não se engasga, não tem dúvidas. Decide! Anda de costas direitas e sorri com alegria. Não gosta de acções e prefere jogar na lotaria. O homem pode até não ver telenovelas mas também não se deixa enganar pelos blockbusters do cinema. Odeia banda desenhada e ficção. Não vai ver nem a próxima sequela das Crónicas de Narnia e, especialmente, os Transformers. Ai isso é que não. Que nojo, deve ele pensar. Que confusão. Robots que ora são carros ora são aviões. Ora são porcas ora são parafusos. Ora chocam de frente sem medos ora se deixam abafar ao primeiro susto. Gralhas cinematográficas, é o que é. Ideias tresloucadas…deficiências técnico-jurídicas.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Abrir Um Ovo Com Uma Picareta Dá Mau Resultado!

Andei a tentar lembrar-me de alcunhas de professores dos anos do Secundário. Porém, à excepção de uma singela “fifi”, nome de código pelo qual a professora de Francês, do 9ºano, era conhecida, não consegui recordar-me de absolutamente mais nada. Vergonhoso, admito. Tenho uma vaga ideia que a determinada altura existiu um professor de Filosofia anão halterofilista, uma professora de Inglês tia de Cascais, uma professora de Português a fazer decalque da Dona Branca, um professor de História em concorrência directa ao Mr Bean, e que outros tantos terão existido e sofrido com a má-língua da malta da altura.

Ora das duas, uma: Ou a minha memória anda pelas ruas da amargura e a precisar de vitaminas e de injecções de adrenalina, hipótese plausível; ou as aulas e a matéria foram tão aborrecidas que daquilo tudo já só me recordo dos anos a passar e eu a ficar cada vez mais perto da loja. Mas da loja falo-vos um dia destes. Sei que houve um ano em que me ensinaram a ler. E outro em que me ensinaram a contar. E que falámos de reis e de rainhas. E de verbos irregulares e de pronomes. E que aprendemos a dar importância à arte e a decorar nomes de rios e de estrelas. Coisas giras e interessantes.

Agora vão levar a tribunal uma professora que, pelos vistos, decidiu, assim, sem mais nem menos, de forma arbitrária e unilateral, vá-se lá a saber porquê, alterar o programa aprovado pelo Ministério da Educação. Deixou de falar dos números, das letras, das contas, dos séculos, dos ditadores, dos heróis da BD, dos pintores famosos, das revoluções, dos planetas, do meio físico e social, dos presidentes da república, da tabela periódica, das equações de segundo grau, das crises, das descobertas, das viagens à lua; e tudo isso para, imagine-se, falar e dissertar e divagar e meditar sobre o tema das orgias. Sim, das orgias. Tédio total na comunidade adolescente, claro. E eu que não consigo lembrar-me da porcaria das alcunhas. Deve ser inveja destes miúdos. Só espero que não acabe por ficar provado que, afinal de contas, o tema em análise durante as aulas foi tão-somente a ascensão e queda do Império Greco-Romano...Acho que havia um que era o caixa de óculos, mas já não tenho a certeza.