segunda-feira, 13 de junho de 2011

Chamem-me Feio Que Lindo Qualquer Um É!

Agora o bonito é aderir à restolhada da moda, por um lado manobra consertada a dar para o masoquismo, e por outro, acção idiota de quem é hipócrita e tem pouco para fazer, cujo objectivo é demonstrar a todo o custo que há demasiados feriados em Portugal. Pela opinião dos entendidos, perdemos balúrdios de dinheiro nesses belos dias em que não se pica o ponto, e nos outros em que, por simpatia - para não se molharem os pés-, ficam associados a igual prática de descanso (prefiro dizer balda porque sabe-me muito melhor).

Eu cá, pouco entendido na especialidade, digo que em matéria de feriados e tolerância de ponto, quantos mais melhor, que o Tiranossauros Rex também era o maior do continente dele, até ficar da cor do pó de tijolo para o resto da eternidade. Aqui, nesta matéria, o mal não está nos dias feriado. O problema está, isso sim, nos outros tantos dias do ano, supostamente de trabalho e em que, de uma forma mais ou menos rotineira, a malta finge que vai fazendo qualquer coisinha.

Aliás, pergunto: e o dia em que o D. Nuno Alvares Pereira estraçalhou os espanhóis, não é feriado porquê? E o dia em que o Sócrates se demitiu, não é feriado porquê? E o dia em que Portugal aderiu à UE, não é feriado porquê? E o dia em que o Eusébio faz anos, não é feriado porquê? E o dia em que o Vasco da Gama chegou à Índia, não é feriado porquê? … O nosso problema não está, efectivamente, no número de feriados. A questão passar por ganhar uma mentalidade assente em elevados níveis de produtividade. Aproveitar o tempo. Assassinar as reuniões em que nada se decide. Fazer e deixar fazer. Já agora, questiono: e o dia em que o Benfica joga, não é feriado porquê?

sábado, 4 de junho de 2011

Ver A Esquerda E A Direita Algemadas Atrás Das Costas!

Bem, mas vamos lá, então, a ver uma pequena coisa. Admitamos que, por hipótese, o planeta Terra, de um momento para o outro, começa a ser invadido por pernetas esverdeados e com orelhas de morcego viscosas que, ainda assim, correm bem ao pé-coxinho. Criaturas que chegam do céu acavalados em geringonças que brilham, disparando raios de luz capazes de nos transformar, em segundos, numa espécie de banha de porco, mas, um pouco mais bem cheirosa. Assustador, certo? Pois é.

A questão, hoje, é completamente diferente. Por coincidência, o medo e o pânico surgem por causa de uma criatura esverdeada, porém, sem pernas e sem orelhas que, por outro lado, pode não matar à conta de raios de luz ardente mas que, se atirado em cheio e com a devida potência no Esfenóide, pode contribuir para um diagnóstico de letalidade técnica. Há quem os use de diferentes maneiras. E quem sonhe com eles de manhã à noite, tão úteis que são, dependendo da perspectiva. Eu, que até nem tenho medo de baratas, nem de gremlins, nunca imaginei sentir as pernas a tremer de cada vez que se fala em pepinos.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O Lado Meigo Do Mais Biltre Dos Pistoleiros Do Oeste!

Bastam dois dedos de testa para perceber, sem dificuldade de maior, que isto da campanha eleitoral é sempre mais do mesmo. Em tempos, afirmei que o Povo não existia mais. Ora, reconheço hoje que me enganei e que falhei no prognóstico como as notas de mil. Afinal, sim, o Povo ainda existe, e anda por aí. Todavia, talvez como sempre e sem nunca ter reparado, agora, anda de mão estendida e a pedinchar. Quer dizer, este dito Povo não é bem o tal Povo a que me referia inicialmente. Pelo menos, aquela ideia que tinha do que deve ser o Povo; forte, afirmativo, determinante, simples mas interventivo, espinha dorsal e com sangue na guelra.

O Povo que vejo na televisão resume-se ao conformismo de uma ideia peregrina que é votar na setinha ou na mãozinha. Um Povo que desfralda bandeiras em troca de uma sandes de torresmo e um refrigerante de marca rasca. Um Povo que não sabe explicar ao que anda, refém de si mesmo e da sua fatalidade. Um Povo dos beijos melados, dos berros estridentes e idiotas. Um povo que tem de aprender a falar inglês para perceber o que se passa à sua volta, mas, ainda assim, que vai para a cama à noite sem fazer ideia do pesadelo que lhe vai cair em cima. É só isso que eu vejo. Um Povo que ladra mas não morde.

sábado, 7 de maio de 2011

Um Ovo E Uma Galinha Não São Farinha Do Mesmo Saco!

Se não me tivesse armado em parvo, ao invés de me ter atirado para baixo da linha do comboio, em Xabregas, e tivesse, isso sim, esquecido o mero acaso de ter cento e vinte quilos equitativamente distribuídos por cada uma das pernas, pois tenho a certeza de que seria um tipo bem mais feliz e que nem a celulite no rabo me preocuparia. Sem mais porque, talvez ajudasse o facto de ainda estar vivo, coisa que, mesmo a chamarem-me gordo e badocha a toda a hora, passasse isso a ser boca foleira para não fazer tanta diferença assim, bem vistas as coisas.

Pois que hoje ser gordo é ser-se uma espécie de estrela de cinema, arrependo-me de me ter andado a queixar pelos cantos anos a fio, depressivo e em lamúrias consecutivas. Já que uma nádega pode fazer concorrência à maior abóbora do livro dos recordes, e que uma sessão de ginástica de dez minutos ao martírio de meses de treino a assentar massa e tijolo, o que sei é que não nasci na altura certa, ou melhor, que morri na altura errada. Hoje estava até capaz de soltar a luxúria que há em mim e lançar-me como actor de um filme erótico caseiro. E correr, correr muito. Mas gritar mais ainda do que correr, pois gritar ajuda a perder peso e isso está provado cientificamente.

Pior é que aqui à minha volta, no inferno, estou rodeado de trinca espinhas olheirentos, mortinhos, todos eles, à conta de colesterol em excesso e enfartes de miocárdio. Gordos ou magros, o inferno é um tédio verdadeiramente insuportável. Uma crise pardacenta que nem as labaredas ajudam a esquecer. Sei bem que cá vim parar porque ajudei a descarrilar um comboio, mas, apesar de tudo, uma coisa é castigarem o Bin Laden com um tiro na cabeça e outra, completamente diferente, é andar por aí apregoar a revolução e acabar por voltar a devolver o poder aos mesmos do costume. O que mais sinto é a saudade dos gelados, porque como dizem e está na moda, gordura é formosura.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uma Vez Por Outra Ninguém Nota Nada!

De quando em quando, tendo a terra, entretanto, girado mais um bom par de vezes, somos todos presenteados com novo e belo casamento real. De retro com as noivas de Santo António, que à britânica é outro sabor e classe já que, não desfazendo, tem muito mais a ver connosco. Na minha perspectiva é tudo muito bom, relaxante e indolor. Nada como constatarmos que, mais uma vez, a Walt Disney, afinal, até tinha razão; esquecida a parte dos anões, das abóboras, das bruxas más e das maçãs envenenadas.

Sim, os contos de fadas existem e as historias de príncipes e de gatas borralheiras plebeias que, por mérito próprio, ascendem à realeza, também. Petrifico com os treinos, os ensaios em tempo real, o vestido do qual ninguém consegue adivinhar a cor, a análise aos gestos, aos olhares, aos sorrisos, e às respostas na ponta da língua às perguntas estúpidas. Ou seja, está tudo milimetricamente planeado, para que nada seja normal em dia de surrealidades.

Valham-nos as habituais revistas, tablóides e comentadores masculinos com voz de balão de hélio. Proféticos! A boda é amanhã e a palavra mais sonante já é a palavra traição. Ora que até nem é uma palavra pesada por aí além, se o tema de conversa for o pacto de não agressão entre o Luís Filipe Vieira e o Pinto da Costa. Tratando-se, neste caso, de um casamento em perspectiva, e ainda para mais de sangue azul, ficaremos à espera das cenas dos próximos capítulos que, a fiar nos prognósticos, poderão rapidamente deixar a fantasia da Walt Disney, tomar um pouco da inspiração de um Perry Mason Regressa, culminando num A Culpa é do Mordomo. A ver vamos.

domingo, 24 de abril de 2011

Não É Por Matarmos As Moscas Que Os Pudins Se Conservam!

Eu até já sabia que agora é que caminhamos, mesmo, numa auto-estrada de sentido único, sem ramais de ligação à vista, com quilómetros e quilómetros de negrume, sem riscas, para desbravar, mas… Então andam os países lá pelo Médio Oriente a tentarem desfazer-se de décadas de ditadura, para nós por aqui, no bem bom, andarmos a ter sonhos e visões de expansionismo totalitário futebolístico de estilo maoista/stalinista???

A bem da verdade desportiva devo dizer que, infelizmente, aquece-me muito pouco a vitória do Benfica, de ontem à noite, em Coimbra. Não que me deixe indiferente - o meu sangue é vermelho -, porém, dada a importância do encontro, ando a guardar-me para voos mais altos e bem mais gratificantes. Não posso, todavia, deixar de comentar aquele objecto abjecto e deprimente a que, com simpatia, todos se foram referindo como “A taça”. Eu só pergunto: mas de onde veio a ideia? De que sonho (ou pesadelo)? Qual a corrente de inspiração? Quais as referências?

Sim, onde estão os troféus cor de prata, tipo caneco, para a malta dar beijinhos, correr a volta de consagração e tirar fotografias em barda? Uma assim de traço simples e que exija tratamento cuidado com Duraglite. Ora chamar àquela coisa Taça é pior que acreditar que aquele pedaço preto pode ser o tal monólito extra-terrestre imaginado por Arthur C. Clark, algo que até não teria nada de mal, não fosse o contexto. Aquilo, nem o Kim Jong Il queria, em versão gigante, para ornamentar uma praça de Pyongyang.

sábado, 23 de abril de 2011

Quando Fumo Os Pulmões Arfam de Alegria!

Mas afinal de contas, deveria ou não ter havido tolerância de ponto, na passada quinta-feira? Pois bem, eu cá, na minha resiliente opinião, acho que sim. Sim, mas é claro que devia! E ainda bem que houve! Os detractores do costume, esses é que nem sequer se aperceberam do bem que aquela tardinha fez à crise. Passou-lhes tudo ao lado. Já o governo, uma vez mais, esteve brilhante nesta jogada estratégica, sinal absoluto de uma mestria sem igual, visionária e inteligente. Pois a táctica é simples e não demora assim tanto a perceber:

Basta ser-se português de gema (o que não implica, necessariamente, saber cantar o fado do desgraçadinho ou andar com um pente no bolso das calças), ter-se vivido em Portugal desde pequenino e, importante, ser-se benfiquista, acreditar que o Eusébio ainda tem vinte e cinco anos e que vai ser contratado para a próxima época. É que isto foi de uma inspiração fora de série, ó ai se foi. Com esta tolerância de ponto voltámos a tomar a rédea à situação. O segredo chama-se aculturação, foi praticado há séculos, com perícia, pela altura dos Descobrimentos e, em véspera de sexta-feira santa, voltou a mostrar os seus efeitos imparáveis. Não lhe chamem emboscada. Não lhe chamem ardil. Não lhe chamem estratagema.

Em última instância sim, queremos que os membros da troika fiquem iguais a nós. Que pensem como nós. Que levem isto da vida como nós. O resultado está à vista de todos e nem duas semanas passaram e já está a dar frutos. Ontem ninguém lhes colocou a vista em cima. Onde é que estiveram? Por onde andaram? Ah, pois é. Ficaram mas foi na caminha, no bem bom, na sorna, no choco. O objectivo é simples, daqui a três semanas, quando o tempo da praia chegar, já ninguém vai estar a falar de resgate financeiro, são eles é que vão estar a pedir de joelhos para nos darem dinheiro. E às carradas. Os senhores da troika são inteligentes, mas vou adorar vê-los a desfilar na Avenida da Liberdade, por altura dos santos populares, agarrados a um manjerico, de sardinha na boca e com uma mini na mão.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Andam À Procura Dos Pregos Com Que Crucificaram Jesus!

Era para ter escrito isto há uns dias! Na altura, deu-me uma vontade arrebatadora, todavia, por qualquer motivo que não importa agora apurar, o momento lá passou, e fiz como que ouvidos de mercador à situação; orelhas moucas, vista grossa, tudo junto. Acontece que isto no nosso país, primeiro que se mate um piolho ou uma carraça é assunto para levar uns bons dias. Por isso, não há Quitoso que se aproveite na hora de exterminar um afaníptero, nem lixívia suficientemente tóxica capaz de tirar a gordura mais entranhada.

Passou uma semana e continuam a falar da pseudo combustão induzida do vestido da Lili Caneças. O perigo que foi, a vida vista por um canudo, a tamanha da sorte que a fez escapar por um triz, o vento que nessa noite soprava fraco, o pânico do Marco Paulo, os bombeiros que já vinham a caminho e que até pediram reforços, a mancha de fumo que chegou a ser captada pelos satélites da NASA, as chamas que se viam de Badajoz, enfim, em comparação, o incêndio do Chiado foi coisa para ter derretido dois marshmallows.

Deste acontecimento pirotécnico, faz-me imensa pena imaginar que o vestido da senhora tenha desaparecido em três tempos, totalmente levado pelas labaredas de dois metros. Valeu-lhe a lingerie, com certeza feita de material de boa qualidade, para se ter aguentado e resistido às altas temperaturas. Depois de tanto aparato e entrevistas, acredito, hoje, que morrer imolado pelo fogo deve ser uma diversão do caraças, bem melhor do que queimar os olhos com um maçarico industrial e infinitamente mais estupendo do que dormir a sesta num forno crematório ligado.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Queremos Um Milagre Que Faça Esquecer A Solução!

Ainda agora a procissão vai no adro e já a onda do FMI anda a afogar-nos o pensamento lógico. Ontem, finalmente, dia 17 de Abril, foi inaugurado à circulação automóvel o último troço da CRIL. Ora esta bela obra pública, escondida por detrás de uma sigla, felizmente curta e que até se diz bem, amiga de gagos e de fanhosos, levou, em oposição de grandeza relativa, a módica quantia de 20 longos anos até ficar concluída. Intervalo de tempo que, por certo, o próprio FMI não levará para nos meter na ordem. Queiramos nós que isso aconteça a bem ou mal.

Mas na inauguração, aquilo que mais me espantou não foram nem os rails metálicos a luzir, e muito menos o cheiro tóxico do alcatrão acabadinho de aplicar. Brilhante, mais uma vez, esteve o sentido de oportunidade português de estar no local certo, à hora certa. Porque perder pitada da inauguração de uma estrada é uma falha grave na formação de qualquer cidadão, e arriscar, mesmo que só daqui a vinte anos, quando já nem dinheiro houver para a gasolina, a impossibilidade de poder dizer “eu estive lá”, é pior que ceder voluntariamente ao martírio das insónias de quem está desempregado, não tem dinheiro para pagar as contas, está prestes a entregar a casa ao banco ou, um pouco melhor, sabe que o subsídio de desemprego não é eterno e já acabou no mês passado.

Claro que eu estou feliz com a CRIL. Aliás, muito feliz, até. Tenho pena é que a inauguração de ontem não tivesse ocorrido há dez ou quinze anos pois, isso sim, teria sido digno de registo. Já de toda a cerimónia, custa-me a engolir a forma aportuguesada com que milhares de pessoas picaram o ponto, de pé no acelerador, à espera que a fita vermelha fosse cortada; gramando de forma abnegada com uma fila de trânsito compacta (contra a qual reclamam todos os dias), depois de terem acordado cedo, numa bela manhã de domingo. Se calhar, sou eu que ando a ver tudo ao contrário. Para mim, a CRIL corresponde apenas a um conjunto de coisas simples: acordar o mais tarde possível, chegar a horas ao destino, circular com desafogo e segurança e sem a menor sombra de trânsito.

domingo, 3 de abril de 2011

Inventem Casas De Banho Que Se Limpem Sozinhas!

No meio é que está a virtude, pois claro. Sabe-se que os extremos nem sempre revelam a verdade, muitas vezes contradizem-se e tantas vezes chegam mesmo a anular-se. Felizmente, ontem, o avião da TAP que aterrou de emergência no Brasil não se espatifou no solo. Pois não teria sido bonito de se ver. Mais ou menos dentro da normalidade, a aeronave lá voltou a colar as rodas à pista onde, inicialmente, sempre esteve programado que aterrasse. E ainda bem que assim aconteceu.

As televisões, claro, logo montaram arraiais, em directo, no aeroporto. Testemunhos em primeira mão precisavam-se e agradecia-se a quem os tivesse para partilhar. À primeira tentativa, logo assim a frio, o anti-clímax televisivo: “Não dei por nada e só me apercebi depois de aterrar, quando me contaram”. Fogo, mas de onde foram descobrir este palhaço? Depois, o enredo lá foi melhorando: “Foi o pânico total, o maior susto da vida, um milagre, com toda a tripulação a correr de um lado para o outro”. Ah, assim já está melhor! Prémio para este senhor (passagem aérea grátis, na TAP, para o Rio de Janeiro)!

É óbvio que todos temos maneiras peculiares de ver as coisas, e as mesmas coisas. Chama-se a isso ver à nossa maneira. O que para um é preto para outro pode ser branco. O que para um é maravilhoso para outro pode ser execrável. Eu, que já me baralho sobejamente a fazer zapping entre a TVI e a RTP, nisto do oito e do oitenta, fiquei sem perceber, ao certo, o que verdadeiramente se terá passado naquele avião; se um cataclismo, se uma massagem tailandesa.

sábado, 2 de abril de 2011

O Meu Juízo Está Onde Eu Sempre Quis Que Estivesse!

Falta-nos a todos, como portugueses, uma cultura de exemplo, algo que vá mais do que a simples e tantas vezes apregoada consciência cívica, ética ou social. Cuspir para o chão é feio, e escarrar para a calçada é bem pior, triplamente mais ofensivo e inestético. Todavia, mesmo assim, conhecedores, não satisfeitos com a asneira, há ainda quem faça questão de não contribuir com o exemplo certo. Que não é o de cuspir na vez de escarrar, entenda-se.

Isto do dar o exemplo é uma coisa complicada, mexe por dentro e faz concorrência às primeiras alergias da Primavera e à mais irritante forma de erupção cutânea. Espanta-me pouco a indisciplina nas escolas, a falta de autoridade dos professores e o desrespeito pela orientação parental. Pois se logo na Primária, os nossos queridos alunos aprendem que o primeiro Rei de Portugal correu a mãe ao bico e ao pontapé, algo que não é assim um exemplo por aí além, para miúdos que chegam a casa e são obrigados a comer sopa ao jantar ou a irem para a cama logo depois da telenovela, estávamos à espera do quê?

A Carris vai trocar a frota de automóveis de todo o seu corpo de gestores de topo. Mas não é a Carris, porque a Carris não pensa, não tem cabeça, não tem dois olhinhos, dois bracinhos nem duas perninhas. Os gestores da Carris, esses sim, reuniram-se e decidiram que estava na altura de mudarem os seus Mercedes, Audi, Volvo e outros do mesmo género. Mais uma vez, aqui, neste caso concreto, o conceito de dar o exemplo não contou para nada, foi esquecido ou simplesmente obliterado, fazendo um trocadilho com esta malta que não sabe, sequer, o que é ter de pagar um bilhete. Em caso extremo, eu diria que até concordo que troquem as viaturas de luxo; e todas. Mais, proponho que passem a utilizar o último grito das viaturas vistosas, com espaço a perder de vista, conforto e ar condicionado incluído. Se não conhecem, vão estudar. Destacam-se na rua pela cor amarelo vivo e dão pelo nome de autocarro.

quarta-feira, 30 de março de 2011

As Pedras Da Calçada Não Alimentam Ninguém!

Sou pouco dado a superstições, tenho-o dito repetidamente. Aliás, e sem a menor sombra de dúvida, para tirar as teimas de uma vez por todas, uma espinha espetada nas amígdalas produz em mim um efeito mil vezes mais radioactivo do que um gato preto que se atravesse no meu caminho; para não falar de uma unha do pé encravada ou num pêlo indisciplinado que se enrole à volta dos testículos. Todavia, ao que vejo, há condutores que são imensamente supersticiosos, muito mais do que eu alguma vez seria, caso fosse adepto dessa tara e mania.

Pois esses ases do volante devem acreditar piamente que a aselhice é coisa para ser resolvida assim, com duas de cal e uma de areia, abençoado seja o chassi, o pneu suplente e o conta-quilómetros. Abrir os olhinhos, travar e acelerar que está certo é aspecto secundário e questão de pormenor nesse maravilhoso reino divino da condução. É o terço a baloiçar no espelho retrovisor que vai resolver na hora do aperto, que o resto é conversa e que se lixe. Está visto, pois está claro, que prefiro infinitamente respirar sem resistências, caminhar do Inferno ao Céu se for preciso, e continuar a sorrir de cada vez que mexo em cada uma das duas glândulas do escroto.

domingo, 27 de março de 2011

Aguarrás Não Se Emborca Em Copos De Cristal!

Eu até que nem queria falar disto aqui, mas, depois de tantos motivos dados, pouco mais me resta que deixar-me levar, rendendo-me às evidências mais do que evidentes. As eleições de ontem, no SCP – clube pelo qual nutro um adorável ódio de estimação –, corresponderam, em larga escala, às minhas melhores expectativas. Se, por distracção ou coincidência, com isso tivesse sonhado, estaria, com certeza, o ramalhete ao nível de um sonho erótico e dos bons, daqueles que não chateiam, mesmo que se acorde antes da hora H.

Primeiro, foram os debates animados e lérias e conversas para inglês ver. Planos faraónicos e estratagemas manhosos. Depois, não faltaram as acusações desesperadas, os milhões de notas a esvoaçar e os planos de investimento fabulosos. E os jogadores galácticos e os treinadores de nível mundial, blá blá, blá blá, blá blá. Houve bocas foleiras, gritaria, porrada, encontrões e tentativas de invasão. E, nos dias que correm, o terem demorado até às cinco da manhã para contarem catorze mil e tal votos, foi a confirmação que eu precisava para constatar que os sportinguistas não percebem nada de matemática.

Agora que já se sabe quem foi o vencedor, fico descansado, também, por aquele assunto do chinês não ir para a frente. De tudo o resto, admito, era aquilo que estava a meter-me mais confusão. Não bastasse já a invasão de restaurantes, ex-restaurantes, lojas, ex-lojas e armazéns chineses, dar por mim preso na segunda circular, enfiado no meio de camionetas e camionetas cheias deles, acabadinhos de chegar, ainda por cima para irem ver jogar o Sporting, isso sim, seria bem pior do que ver um filme do Bruce Lee, dobrado em brasileiro . É caso para dizer: pala começále, complem o melhole jogadole poltuguês, que pode sele que ajude.

sábado, 19 de março de 2011

Mataram O Coelhinho Da Páscoa!

O mundo não corre a nosso favor. Há dias, toneladas e toneladas de sardinhas suicidaram-se em conjunto, perto da costa dos EUA, certamente tentando evitar a sina, mais que provável, de virem um dia a acabar num pratinho, rodeadas de pimentos, num qualquer restaurante português. A ideia do tostamento forçado já devia ser sobejamente deprimente e, ainda para mais, em Portugal, não deve mesmo ter dado para aguentar.

O Japão está feito em cacos e nós em cacos estamos. Com as devidas ressalvas e relatividade abstracta, como é óbvio. Eles estão melhor, mesmo assim. Continuam a ter a Mitsubishi, a Toyota, a Hyundai, a Sony, a Kawazaki, a Honda, a Samsung, a Nintendo, a Toshiba, a Fujitsu, a Canon, a Hitachi, a Sanyo. Ali pelo Chiado a doidice é a Pasta Medicinal Couto e o Restaurador Olex. Visão empresarial. Vamos passar a beber sumo de laranja ao pequeno-almoço. Isto, claro, até o fígado acordar a contorcer-se com dores e voltarmos todos, outra vez, a pedir água das malvas com um toque de fragrância a pétalas de rosa. Redondinhos como os berlindes, é assim que somos.

domingo, 13 de março de 2011

Um Túnel Que Me Leve Rápido De Ontem Para Amanhã!

Percebi, de imediato, que havia perdido a massa anónima, os jovens professores, advogados, engenheiros, historiadores, enfermeiros, designers, arquitectos, policias, psicólogos, motoristas, empresários, cabeleireiros, pedreiros, soldadores, militares, psiquiatras, jornalistas, comerciantes, lojistas, entre tantos outros que agora nem me consigo lembrar. Porém, mais uma vez, repetindo outras manifestações em que, curiosamente, também não consegui chegar a horas, fui dar com os habituais e os do costume, os profissionais, os militantes, os viciados, os acérrimos, os que aparecem sempre, os queixinhas, os mais inteligentes, os iluminados, os eu é que sei, os está tudo mal, os quem me dera não ter nascido, os o problema são vocês.

Atendendo ao propósito em questão, para esses que ainda vi, a minha sugestão sincera e despegada é esta: tomar um banho por dia é importante, vestir uma roupa lavadinha ajuda a socializar, tirar as anilhas do nariz pode evitar acidentes mortais em elevadores apertados, ir à escola dá jeito, largar a garrafa da cerveja e pegar na picareta pode ser o princípio de alguma coisa, ler um ou outro livro sobre Comunismo Vs Capitalismo ajuda a aumentar a cultura geral, o dia de trabalho tem, no mínimo, oito horas completas de sessenta minutos e acordar às quatro da tarde pode ser um sinal grave de disfuncionalidade social,..., bem como andar com o cartão de crédito dourado do papá, escondido no bolso, é uma tamanha traição moral aos companheiros de degredo.

segunda-feira, 7 de março de 2011

É Duro Pensar Nas Garrafas Que Ainda Faltam Beber!

Seja eu atraiçoado pela falta de memória festivaleira, não recordo, na última década, tamanho frenesim em redor do vencedor do Festival da Canção. Mais agudo ou menos agudo, mais falsete ou menos falsete, mais cavaquinho ou menos cavaquinho, a música vencedora esteve sempre, a meu ver, dentro dos padrões considerados “normais” ou, dito de outra forma, aceitáveis para o evento em questão. Aquilo era aquilo e pronto, ajeitava-se, nós lá encaixávamos, ouvíamos, e, nem que fosse às escondidas, trauteávamos. O que, entenda-se, nem quer dizer que fosse o melhorzinho.

Mas até eu, que mais depressa acredito no regresso à Terra de nosso Senhor Jesus Cristo, a ver, um dia, a representante do cançonetismo luso vencer o Festival da Eurovisão – e não tem nada a ver com o pessimismo crónico que me afecta dia sim dia sim –, fiquei surpreendido com o desfecho do passado sábado, encerrada a votação e conhecido o vencedor de mais uma edição. Para falar a verdade, noutro contexto, até simpatizo com o formato, aparentemente naif; e dou umas gargalhadas e reajo às piadolas e tudo. Aquilo é engraçado, espevita o saudosismo e dá assim um certo ar de rebeldia chique.

Porém, na minha modesta, humilde e desinteressada opinião, a haver conclusões a tirar, nem devem essas passar pela parte musical. Sabemos que no pós-década de setenta, chegado o declínio e o descrédito do Festival, as melodias intragáveis e as letras melosas e absolutamente idiotas tornaram-se na rotina habitual. Pois o pior nem é o Jel e seus muchachos terem ganho o prémio mais cobiçado (até ele ficou encavacado). Mais depressa cortam os pulsos dez suicidas ao som do “Quando cai a noite na cidade”. Noto é que, como nação, estamos a afunilar pelas mais tenebrosas características dos países da América do Sul. Deixámos de acreditar e agora achamos que tudo serve para mostrar o descontentamento. Mas pode até ser que lá para Maio, na Alemanha, o júri vá na conversa e dê bastante ênfase à parte cénica do embrulho. À ceifeira eu dou doze pontos, pelo menos.

sábado, 5 de março de 2011

Três Quartos Daquilo Que Mais Me Apetecer!

Retido no trânsito, constatei, uma vez mais, que de pouco vale querer mexer muito nas coisas. Há uns quantos anos, por esta altura, miúdo, andava eu preocupado em arranjar um casaco verdadeiramente ruçado, capaz de imitar o casaco ruçado do Buffalo Bill, ou, então, de encontrar uma capa verdadeiramente azul, capaz de imitar a capa azul do Super-Homem. Tudo como se aquilo fosse o maior e mais preocupante problema do mundo, e não deixando eu a coisa por menos, sendo o Buffalo Bill o mais ágil dos mais ágeis pistoleiros do Oeste, e o Super-Homem o mais forte dos mais fortes super-heróis, da banda desenhada, provavelmente, pensando bem, até seria.

Ontem, como há uns anos, nas imediações duma escola primária, vi uma princesa e um Homem Aranha e um Zorro e um Dragon-Ball e um Noddy e um dinossauro e um rei e um Hulk e um mosqueteiro e uma enfermeira e um policia e um ladrão e um coelho e uma rã e um soldado romano e um macaco e um ninja e uma Branca de Neve, entre outros. E hoje os jornais dizem que o Pedro Santana Lopes admite fundar um novo partido. E até podíamos tentar mudar o mundo e coisa e tal, mas, para quê darmo-nos a esse trabalho se, pelo menos, rir ainda é algo que nos faz bem? Pois há coisas que não mudam nem nunca hão-de mudar... É Carnaval e ninguém leva a mal.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Uma Ponte Constrói-se De Um Lado Para O Outro!

Acordei tarde. Nem é costume mas, aconteceu-me. É muito estranho, pois para um defunto como eu, sentir o coração bater assim, daquela forma desalmada e estrondosamente forte, só poderia ser sinal de que este dia teria algo de muito especial. Se calhar estava era a precisar de voltar a sentir isto. Desde que morri que a coisa tem andado muito calma em termos de tensão arterial. Há meses que os pulsos pareciam troncos e as carótidas tubagens de esgoto entupidas.

Apeteceu-me comprar flores. Logo eu que nunca me dei bem com flores por causa da sinusite, e, para morto, tentar suicidar-me com um ataque de espirros pareceu-me uma perda de tempo. Agora já é noite. O dia correu bem e fiz tudo o que me apeteceu. É destes que eu preciso para passar pelo óbito sem sobressaltos de maior. Sorri bastante, por isso sinto-me muito leve e feliz.

Agradam-me as boas notícias e foi impossível ficar indiferente ao facto de saber que, finalmente, lá acabaram por encontrar o corpo do Senhor Marcolino, o vizinho do segundo esquerdo. Sempre fui da opinião que seria pouco provável que um tetraplégico conseguisse desaparecer durante dez anos sem dar nas vistas, mas enfim. Foram dar com ele deitado na cama pelo que, imagino, deve ter falecido quentinho e sem frio. Ainda bem. Emociona-me isto dos velhinhos que morrem. Embora seja da opinião que, para exemplo futuro, o deviam retalhar aos pedaços e mandar à jaula dos crocodilos. Morrer assim, de um momento para o outro e sem avisar, só denota uma enorme falta de educação da parte dele.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Estranho É Chegar A Algum Lado E Olhar Apenas Para Onde Se Quer!

Inventar é uma coisa linda. Fosse eu capaz de inventar algo que se visse ou se prestasse ao jeito, morreria feliz uma segunda vez, pois que da primeira morri sem vontade nenhuma e sem ninguém me avisar, e já dei por isso tarde e sem nada conseguir fazer para o impedir. Por dificuldade flagrante de raciocínio, longe de mim ser capaz de imaginar, já, de um momento para o outro ou em fracção de segundo, que deslumbrante engenhoca sairia deste pedaço de cérebro queimado e ressequido. Vou, portanto, e entretanto, reconhecendo o mérito aos outros, salivando de espanto e roendo as unhas de inveja.

Ontem encomendei dois Baby Reborn cá para casa. O conceito é ultra chique, modernaço e lavadinho. Ter mas não ter. Abraçar a paternidade com ambos os dois braços em simultâneo e ao mesmo tempo. Privar-me de tudo e continuar a fazer as coisas como até aqui. Como não sou de cerimónias, nem parvo, pedi dois exemplares com os olhos cerrados. O objectivo é evitar as berrarias e continuar a ouvir música apenas quando tenho vontade, sem ficar à mercê da música dos outros. É claro que vêm os dois sem bracitos, pois assim, à partida, colados com significante nível de deficiência motora, o risco de virem a mexer nos livros ou a partir alguma coisa de valor é reduzido a um nível muito próximo do zero absoluto.

Tentei que um deles fosse inspirado na figura de Hitler quando era mais pequeno, mas explicaram-me que o bigode não faz parte da lista de combinações disponível, e que mandar fazer um assim à pressa, à medida e personalizado, levaria meses e ficaria bem mais caro. Ainda não sei ao certo mas acho que um vai chamar-se Tó e o outro vai ser qualquer coisa muito próxima e familiar de um Zé. Tó Zé ou Zé Tó, o que importa é que vêm a caminho e eu já ando a pintar as paredes do quarto. Podia haver alguém capaz de inventar uma mistura de cores bem mais alegre e bem-disposta, porém parece-me que o verdadeiro problema é já não haverem inventores como havia antigamente.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Mostrou-me As Agulhas Assim Que Falei Do Dedal!

Sou um gajo do óbvio, uma alma penada vendida que assumiu os seus pecados antes de entrar no Inferno, e que por aqui tem ocupado o seu cantinho, sem grande alarido. Vou passar férias ao Egipto. Decidi hoje! Acordei e percebi que mais vale ir a algum lado a não ir a lado nenhum. Com um pouco de sorte ainda me pagam a viagem e fazem de mim exemplo vivo de que, afinal, tudo está bem quando acaba bem. As pirâmides não foram abaixo e as múmias continuam enroladas em gaze. Sim, convidem-me e eu vou. Paguem-me a viagem e piro-me daqui a cinco minutos. E demito-me da loja, se for necessário.

Há pessoas inteligentíssimas no universo televisivo e com as quais aprendo várias coisas, diariamente. Acho que nasci para aprender e agora, depois de morto, como a minha concentração aumentou para mais do dobro, tento olear a minha cultura geral o mais que consigo. A Carolina Patrocínio tem um mundo só dela e anda a mostrá-lo na televisão. Tudo muito animado, tudo muito eclético. Em dia de passeio à Vila de Sintra, partilha ela, para meu deleite, que ouviu dizer que Palácio da Pena é mais bonito que o próprio Palácio de Versalhes. Ele mesmo, o verdadeiro.

Quando tinha pernas e ainda conseguia ir sozinho até ao Palácio de Queluz, eu também achava sempre que aqueles jardins eram bem mais bonitos do que as arcadas do Taj Mahal. Ou, já agora, e ainda dentro do mesmo estilo, que os salões e as fachadas frontais eram bem mais deslumbrantes que a entrada principal da Pirâmide de Quéfren.