quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Um Dia Disparo Um Foguete Para O Ar!


Dizem que o destino controla-nos os dias, e a sorte. Que é déspota, que tem poder e não sei mais o quê, e que atentar contra ele é pior do que arrancar um dente a sangue frio. Daquilo que conheço do destino, ou da ideia que tenho dele, e seja lá o que isso for, é que é fodido, não porque me meta medo, mas, somente porque não nos respeita e vive com o mau hábito constante de fazer sempre o que bem lhe apetece. Dá-me ideia que esse destino, então, mais não é do que um bazófias, tem a mania e gosta de se armar aos cucos.

Ainda não percebi se o destino me quer bem ou mal. Mas também, nunca o vi e a mim, até hoje, nunca me disse nem que sim, nem que não. Como não lhe vendi a alma, continuo a ter a prerrogativa máxima de o mandar enfiar os dedos onde bem lhe apetecer, até queimar, e até onde ele gostar que lhe enfiem os dedos. A mim, é-me indiferente.

Riu-me do destino. E riu-me porque sinto que não lhe devo nada. Porque também consigo ser um filho da mãe da pior espécie. Porque se dizem que “está escrito”, o que digo é que não há ninguém a estragar folhas por mim, porque quem escreve para onde vou, sou eu.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

As Borboletas Não Dormem No Céu!

Lá está, o mundo caminha para o abismo e nós, como se nada fosse, assobiamos para o ar e convencemo-nos que saltar da Ponte 25 de Abril até é radical porque faz cócegas na barriga e ajuda a limpar as narinas, logo naquele dia em que até tínhamos ido ao supermercado comprar lenços de papel. No espaço de uma semana tive já dois graves problemas envolvendo gelados. É que eu gosto tanto de gelados, que assumo que não posso viver sem eles. Os gelados derretem-se ao calor e eu derreto-me por eles. Uma espécie de complexo de Édipo da gulosice, se conseguirem imaginar-me filho de um gelado, em que, óbvio, gelado é um substantivo uniforme sobre comum, ou seja, em que, nesse caso, seria a minha mãe, ainda que, simplesmente, a tratasse por, meu querido gelado.

Aprendo à minha custa que ceder à publicidade que se faz aos gelados pode ser algo contra-producente. Especialmente para os viciados em gelados, coisa que, para minha desgraça, é o meu caso. Sim, dizer que se vende o melhor e mais saboroso gelado do mundo pode atrair muito maluquinho desequilibrado. E um maluquinho desequilibrado que saliva por uma mistura explosiva de sorbet de limão com framboesa, não é uma coisa agradável de se ver, ou de controlar. Mas maluco, maluco, é esperar numa fila, durante trinta minutos, para conseguir lambuzar a língua num gelado. Tudo porque alguém se lembrou de dizer que aquele é que é o melhor e mais saboroso gelado do mundo. E eu adoro gelados. E sou viciado. Mas não sou maluco.

Então, para um tipo como eu, que adora gelados, é difícil de entender o que alguns lobby’s querem fazer à indústria dos gelados. Porque eu gosto mesmo de gelados, e sou daqueles que se deita a pensar na sobremesa que vai comer no dia seguinte, no restaurante, ao almoço. Normalmente, e quase sempre, um gelado, claro. Por minha vontade, eu nunca teria comprado um T3, mas sim uma geladaria. Até porque não deve dar tanto trabalho a limpar e como, se pudesse, por minha vontade, casaria com um gelado, seria uma boa forma de juntar o útil ao agradável. Tudo para vos dizer que já há quem venda gelado de chocolate light, sem que tenha disponível, para escolha, o tradicional e saboroso gelado de chocolate normal. Para mim, que adoro gelados, que sou viciado, mas, que não sou maluco, faz-me pensar que, provavelmente, era este o sinal divino que andava à espera, para evitar que a minha barriga continue a inchar como se fosse uma grávida com desejos, de gelado.

sábado, 21 de agosto de 2010

Chuck Wallberg V

Noite. A rua, surpreendentemente limpa e brilhante. Havia chovido durante quase três horas seguidas. Pequenos regatos de água escorriam ainda, livres e resolutos, pelas bermas de cimento, impermeável, arrastando consigo, no turbilhão da correnteza, pequenos despojos e dejectos abandonados. As folhas das árvores pingavam, rejuvenescidas. Aqui e ali, vozes humanas, imperceptíveis. As únicas, ainda assim, capazes de perturbar o sibilante e desordenado som da urbe.

Chuck encostou-se ao tronco da maior árvore da rua, toda ela imponente na sua copa verde e espessa, sobranceira sobre os telhados das casas. Manteve-se na penumbra, camuflado. Forçava-se a uma respiração lenta e cadenciada, ordenando ao coração que, também ele, não provocasse qualquer tipo de ruído que pudesse denunciar a sua presença. Olhou de soslaio, tentando perscrutar o interior de uma das casas. Casa que conhecia bem e da qual mantinha, depois de tantos anos, uma presente e, apesar de tudo, jovial memória. Aproveitava a oportunidade de um intervalo nos cortinados, meio abertos, tentando aperceber-se do que se passava no interior da habitação. Três divisões iluminadas, em tons de amarelo, duas no piso térreo e uma no piso superior. Em baixo, a sala de estar ou a cozinha, sem certeza, pois não conseguia ver bem. Em cima, um dos quartos de dormir, por certo. Ninguém à vista.

Incomodava-o o cheiro fétido no ar a pasta de papel celulósica. O brilho das luzes da única fábrica ainda em activo na cidade, inaugurada, curiosamente, no dia em que Chuck completara cinco anos de idade, enfeitava o manto azul-escuro, que dominava o horizonte. Aposto contigo como não demoro dez minutos a entrar lá dentro, disse. Promessas, ouviu. Soltou um pequeno esgar que lhe moldou o rosto de forma assimétrica. Dentes brancos e cuidados, irrompendo de um dos cantos da boca. Sabes bem que se quisesse já o tinha feito, disse. És um cobardola, e já só falta mesmo mijares-te pelas calças abaixo, ouviu. Cravou, descontrolado, as unhas de uma das mãos, no tronco da árvore. Esmagou os maxilares, um contra o outro, até ouvir um ranger de dentes aguçado. Se me continuas a foder a cabeça, ainda te mostro mas é a ti, primeiro, quem é o cobardola, disse. Uma gargalhada. Uma, duas, três, quatro horas. Chuck, em discurso directo. Depois da conversa, reconfortado, partiu. Esperavam-no, noutro lado.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

2001 Odisseia No Espaço!

Reparo, sem ter de procurar muito, que ontem se contabilizou o número redondo de dois mil e um mortos, internacionais, no Afeganistão.

Ora a mim, que quase não sei onde fica o Afeganistão, ou pouco mais sei de que fica para lá para aqueles lados, bem para longe daqui, num canto qualquer, custa-me a entender e a tolerar tal chacina, que considero um desperdício de vidas intolerável. É, então, óbvio que, não faz parte dos meus planos pessoais algum dia ir ao Afeganistão. Não apenas porque o Afeganistão é longe que se farta, e que a viagem deve ser do maior aborrecimento que se possa imaginar, mas porque há muito descobri que o medo abunda em mim, da cabeça aos pés, que me domina e me congela o pensamento e que, provavelmente, no Afeganistão, não duraria um minuto em pé.

Não tendo feitio para aventureiro, não sou do género capaz de abdicar dos pequenos confortos da nossa saborosa futilidade diária, do sol da praia, dos carros de alta cilindrada, dos telemóveis, das viagens no Verão, da internet, dos relógios. Ou, também, das maiores responsabilidades sociais que nos dão status, e nos fazem ser alguém nesta vida, como são o caso de ter um emprego estável das nove às cinco, ganhar um bom ordenado, beber chá ou café, falar inglês, ter um curso superior, ter uma relação estável para me afirmar. Tudo coisas que, por outro lado, ao contrário do que imagino ser uma viagem ao Afeganistão, acabam por dar um gosto especial à nossa vida e que, sem a menor sombra de dúvida, nos permitem dizer, à boca cheia, que somos, realmente, pessoas imensamente felizes.

Assim, aqui, bem longe, em segurança, o que oiço nas notícias basta-me para perceber que há situações que nunca deveriam ter surgido. Que a guerra, lá longe, no Afeganistão, é, muito provavelmente, uma delas. Uma estupidez. Uma perda de tempo. Mas, sei eu, talvez não seja apenas o medo uma das razões que me leve, de forma tão decidida, a afirmar que, a mim, nunca me apanhariam lá, por aqueles lados. Aqui também se morre, e é um sito tão fodido para morrer como qualquer outro, em qualquer outro país. O que, por si só, sair à rua todos os dias, aqui, já faz de mim um tipo forte e decidido, capaz de, mesmo sem usar Axe, provocar o mais selvagem dos desejos, no sexo oposto. Ainda para mais, e bem mais, assustar-me-ia a ideia de ter de me pôr à prova diariamente, de entrar num desafio constante à minha sanidade mental e à minha resistência física. E isso, bem vistas as coisas, não tem valor absolutamente nenhum. Até porque, no fim da linha, o que esperam de mim, ou de qualquer um de nós, homens, é que seja alegre e descontraído, que ande de bem com a vida, que seja pai, simpático, marido, que vista bem, que ande na moda, que vote no partido certo, que fale com palavras bonitas e que escreva dentro da legalidade do novo acordo ortográfico.

Tenho na ideia que, ainda assim, como qualquer país do mundo, que também o Afeganistão possa ter as suas próprias cores, os seus próprios cheiros, as suas próprias gentes, as suas próprias particularidades jamais impensáveis. Coisas que não se vêem na televisão, nem se lêem nos jornais, características intangíveis que podem até, sem esforço ou surpresa, provocar em nós uma espécie de mistério e de intrigante interesse. Mas sei que nunca iria ao Afeganistão porque, imagino eu, como ir e ver no cinema, a maior aventura que alguma vez farei, pior do que perder uma perna ou um braço, ou até mesmo a vida, seria ir, voltar e sentir que, sem o ter pedido, já não era é o mesmo. Irremediavelmente. Especialmente, se ninguém se importasse com isso.

domingo, 15 de agosto de 2010

Olhar E Só Ver O Que Se Quer!

O Caracol, invertebrado de afável simpatia e de ranho translúcido tolerado, hesitante nos movimentos mas exuberante nas reacções afectivas que provoca quando em contacto directo com os vários tipos de cerveja, ainda serve, em algumas zonas desta nossa capital, de dinamizador à economia e aos pequenos empresários locais. Assim, arrisquem-se e deixem-se levar à aventura ali para os lados do Coliseu de Recreios. Visivelmente, é certo, o negócio da restauração anda titubeante. E com isso muito sofrem as cataplanas de marisco, as lagostas e os bifes do lombo. Porém, aparentemente, o caracol, esse, continua a dar cartas e a alegria necessária às esplanadas e a fazer com que, por alguns quantos quartos de hora, nos esqueçamos que um dia destes, já quase ali, as férias vão ter de acabar.

Como nem tudo são rosas, particularmente em toda e qualquer laracha à boa maneira portuguesa, também neste caso existe um pequeno e ambíguo “mas”. O caracol, apesar de todo o seu sucesso e décadas a provar que merece a nossa confiança, corre agora sérios riscos de se ver ultrapassado na importância e, até quem sabe, obliterado irremediavelmente dos cartazes escritos à mão que por aquelas bandas alegram as paredes dos restaurantes. Uma “nova” espécie de vertebrados de infindável versatilidade, perspicácia e ousadia luta para ocupar um lugar de destaque em toda aquela extensão de pedras da calçada. Profundos conhecedores das mais modernas técnicas de marketing e de venda porta a porta, qual família chinesa a fazer imitações de ténis da Adidas, trabalham de sol a sol, arduamente e sem olhar ao descanso do pessoal, em feriados, pontes ou fins-de-semana.

O seu lema é simples, é simpático, é bonito e, à primeira vista, é tipicamente português. Eu cá é que ia-me engasgando, mas, talvez, apenas porque estava distraído a esventrar um caracol e a emborcar mais um trago de cerveja. Quanto à ideia está lá toda e é inovadora. Então, quando forem aos caracóis, não se admirem se no antes, no durante ou no depois, vinda do nada, uma angelical voz vos aborde e vos pergunte: “vai uma drogazinha?”

Para ser sincero, eu até achei querido.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Colecção Outono/Inverno!

É no que dá aprender a planear os Planos Poupança Reforma a ver episódios dos Simpsons...no mínimo, mais espaço debaixo do colchão.- Limp Bizkit, 14 de Setembro, Pavilhão Atlantico.


- Goldfrapp, 22 de Setembro, Coliseu de Lisboa.

- Dead Combo, 26 de Outubro, Cinema São Jorge.

- Interpol, 12 de Novembro, Campo Pequeno.


- Arcade Fire, 18 de Novembro, Pavilhão Atlantico.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Um Ovo Estrelado Não É Um Disco Voador!

Gostava de por aí, ao acaso, encontrar um remédio santo, um que me curasse, de vez, de todos os meus males, e que só me fizesse bem. Se melhor remédio por aí houvesse, assim, ao acaso, acreditem que não desdenharia, nem por um segundo que fosse, da oportunidade de o emborcar de um trago só, a seco, sem água, e de me deixar levar por ele, em qualquer lado, até à overdose.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Baril É Jogar Ao Berlinde Com Bolas De Berlim!

Hoje, armado em banhista, consequência (não forçada) do mês que vivemos, pude experimentar (forçadamente) o que é levar com uma bolada em cheio nos cornos; salvo seja, cruzes canhoto, e que o diabo seja cego, surdo e mudo. Mas a maior piada é que há dois dias que os canais de televisão não se fartam de falar em multas, coimas, regras, boa educação e não sei mais o quê, e o caralho que os foda a todos.

Isto de estar na praia, rodeado de famílias felizes a transbordar de rebentos em pulgas com genes do Cristiano Ronaldo, e pais com tatuagens do logótipo da Federação Portuguesa de Futebol (eu sei, é mau, mas é verdade) pode ser, está visto, bem mais perigoso do que entrar na jaula dos leões, no jardim zoológico, à hora do almoço.

sábado, 7 de agosto de 2010

Chamadas Para Tóquio!

Comunicar com o além, proeza que para muitos pode ser considerada mórbida e pouco saudável, talvez seja, ainda assim, uma excelente oportunidade de matar a solidão, fortificar laços de amizade e, se for caso disso, conhecer pessoas novas e interessantes. Aberto que estou a este novo conceito de fazer concorrência às sms, que até dá menos trabalho ao cérebro e sempre pode contribuir para acabar com o monopólio das grandes operadoras de comunicações, quero, então, ser dos próximos participantes no programa da Iva Domingues, que ainda para mais é gira, veste bem e, agora, tem aquele registo vocal de turista japonês, em êxtase, de visita ao Panteão Nacional. Óptima técnica para irritar peixeiras ou curar otites do ouvido médio.

Ora porque imagino que por aquelas paragens, lá por longe, pelo além, que a rede de telemóvel seja péssima, e que o serviço de banda larga seja ainda instável e de pouca confiança, sem que se vislumbre, pelo menos para já, uma conectividade supersónica, baseada na fibra óptica, parece-me, pois, a senhora inglesa, uma forma distinta de dar a volta às birras do destino, e às chatices e complicações daquilo a que todos, de uma forma ou de outra, vamos conhecendo por Vida. Eu, que sou um tipo simples e humilde, que não tenho a mania das grandezas e sou capaz de me contentar com pouco, aviso já que não tenho por obsessiva ambição ir ao programa dificultar a vida à senhora. Espero apenas ser tratado com a mesma dignidade irrepreensível com que têm tratado todos os participantes até aqui e que me dêem a oportunidade de, finalmente, conseguir comunicar com o Donattelo, das Tartarugas Ninja e o Dartacão, dos Três Moscãoteiros. Como vêem, não é nada de mais, nem nada assim de tão extraordinário.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Trabalhar Para O Bronze!

Os escaldões (não as queimadas, nem os incêndios) podem muito bem ter-se tornado no objecto de culto mais valioso e desejado por estes dias. Democráticos quanto baste, os verdadeiros escaldões, apartidários à nascença, que não olham a tendências ou a modas, que não cedem nem a pressões camufladas nem a dicas indecorosas, que respondem a todas as perguntas e mais algumas, quando nascem, nascem para todos e não se deixam influenciar nem por extractos bancários, penteados, marcas de fato de banho nem, muito menos, pela cor dos chinelos.

Os escaldões (não as queimaduras, nem os esquentamentos), na moda e a ganhar raízes por essas praias fora, de manhã à noite, são o copo a mais na mistura de bebidas que nos põe tontos e nos faz vomitar no tal jantar em que até tínhamos de nos portar bem. Tiranos quanto baste, os verdadeiros escaldões não se deixam iludir pela cor da pele, ignoram a altura e o peso e, porventura, um dia destes, vamos vê-los por aí a fazerem parte de um catálogo de descontos de marcas de telemóveis, prontos a serem trocados por pontos acumulados, em senhas do IPO.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Se Tu Tens, Eu Também Quero Ter!

Convencido que fiquei com a demonstração, em directo e na televisão, das virtudes dessas pulseiras mágicas de quem toda a gente fala, acordei a desejar uma, como forma rápida e eficaz de disfarçar esta minha notória inconstância emocional. Daquilo que vi, na minha modesta opinião, a ideia peca apenas, ainda que genial, confirmo, por não nos terem brindado a todos, incrédulo público, com uma demonstração de destruição de tijolos, em brasa e com pedaços de vidro incrustado, por parte, talvez, de um jovem voluntário, escolhido ao acaso, ali no intervalo de idades entre as noventa e as noventa e cinco primaveras.

Tenho a certeza que, dessa forma, ao esborrachar um desses tijolos, com e sem pulseira, primeiro sem e depois com, claro, porque o produto é sério e o objectivo é, de facto, que se sinta perfeitamente a diferença de desempenho; notar-se-ia, logo ali, in loco, aquilo que se pretende transmitir ao fazer referência às palavras equilíbrio e desequilíbrio. Mesmo assim, apesar de tudo, irei tratar de encomendar um desses olhinhos mágicos, ainda que um pouco acagaçado, pois é coisa que a observar de perfil, de vez em quando, e não sei bem porquê, faz-me recordar a imagem das forças do mal, no filme O Senhor dos Anéis. Espero então que tão útil objecto não me venha a dar pesadelos durante a noite, virando-se o feitiço contra o feiticeiro, isto no caso de me deixar dormir com o braço debaixo da bochecha do rosto, e o eléctrodo da pulseira entrar em conflito directo com o fio de baba que, com a idade, tem-se tornado mais constante e pegajoso.

Vou, portanto, sem perder muito mais tempo com conversa fiada, tratar de salvaguardar que o meu pulso encete e lidere uma mudança expedita e proveitosa em toda a minha vida. E como nestas coisas não se perde nada em tentar ver um pouco mais para além do que a linha do horizonte, quem sabe se, na vez de apenas uma, me aventure mas é logo em duas pulseiras. É que depois de alguma reflexão, parece-me que não perco nada se colocar uma segunda pulseira no tornozelo de um dos pés. Nunca se sabe quando uma situação de vida ou de morte me exigirá vir a correr ao pé-coxinho, não digo que para atravessar um lago em chamas cheio de crocodilos gigantes, mas, uma outra qualquer situação não coberta pelas companhias de seguros, que são umas sovinas na hora de reembolsar os clientes.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Vais Para A Escola? Leva A Cola.

Quando se trata de acordar para a vida e abrir a pestana, ainda estou para descobrir qual o remédio santo de maior proveito e eficácia capaz de cumprir tal objectivo. É que ter de escolher entre um balde de água fria pelas costas abaixo, ou, como segunda escolha possível, um estalo de mão aberta, sem luva branca, em cheio nas ventas, pode ser tão absurdo quanto ter de escolher entre um prurido no recto ou uma inquinação nos testículos, coisas que, em tempo de veraneio, tanto uma como a outra, são pouco aconselháveis e não devem ser nada agradáveis.

É preciso ver polacos a lavar os pés no lavatório da casa de banho, estar dentro do raio letal do cheiro de um francês que faz concorrência diária ao queijo da Serra da Estrela, ouvir um americano a falar de Hot-Dogs como se estivesse ele a falar da 8ª maravilha da culinária internacional, ou ter de aturar um alemão que disserta como se Adolf Hitler tivesse sido apenas uma personagem de banda desenhada, para nos apercebermos que, bem lá no fundo, já depois do lodo e de toda a terra barrenta, não somos assim tão maus quanto nos deixamos por vezes pintar e que, pelo menos, ombreamos ao melhor nível da fina flor do entulho.

Afinal de contas, bem vistas as coisas, parece que até somos competitivos e rigorosos, que até temos visão estratégica, que sabemos o que queremos, que planeamos bem e concretizamos ainda melhor, que temos um rumo, que damos valor a quem trabalha, que premiamos a competência e desprezamos a trapalhada. E é por isso mesmo que, nesta terra de oportunidades, decidi, por mim, voltar à escola. À escola e do inicio, desde a primeira classe. Agora, de uma vez por todas, quero provar ao mundo que consigo fazer frente à matemática e à física com um sorriso nos lábios e com um ar de deboche de fazer inveja a todos os aprendizes de feiticeiro do José Mourinho. Agora, vou provar que se em tempos a sociedade me obrigou a passar pelo vexame do chumbo, foi porque, então, vivíamos sob a opressão de um sistema tacanho e retrógrado, com falta de visão e obsoleto. Esta vai ser a minha oportunidade de ser alguém e eu não a vou desperdiçar.

PS: Sabem quando começa a campanha de descontos dos hipermercados para o material escolar?

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Regresso Ao Futuro!

Estou de volta!
Custou mas foi e o tempo lá passou e agora, chegado o Verão, não há quem me apanhe ou quem me force, nos tempos mais próximos, a regressar ao marasmo dos meses anteriores. Sinto que as oportunidades para este regresso são imensas. Não sei se com a qualidade que eu próprio desejaria, pelo menos para já, mas, no entanto, aos poucos, com jeitinho, pode ser que a inspiração e as ideias voltem a fervilhar e que isto até volte a fazer algum sentido.

Por agora, porém, talvez precise apenas de me manter calmo, esperar pelo melhor momento, respirar fundo de todas as vezes que o formigueiro volte atacar e, sob pena de me deixar fulminar por uma overdose qualquer, evitar que este coração destreinado de emoções fortes se quebre ao primeiro embate. Festas da TVI, conversas com mortos, pulseiras mágicas, bebés por encomenda, …

Não digo que isto está melhor do que alguma vez esteve mas, parece-me a mim, há muita coisa por aí, por debaixo dessas pedras, pronta a ser descoberta. E porque nem sinto que haja grande necessidade de me aplicar em pontapés acrobáticos, o que me vai permitir proteger as falanges e os metatarsos dos pés, vou simplesmente ficar à espreita, se possível com um copo na mão, a aguardar pelo que o destino me traga. É que do resto, tratarei eu.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Erros De Casting!

A mim parece-me que isto até dava para aguentar; não fosse o fado, as sardinhas, as marchas populares, a TVI, o carnaval de Sines...

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Terra Gira E O Tempo Passa!

A primeira vez que ouvi falar do Clube das Virgens fiquei de imediato deliciado com o assunto. Por aqueles dias, podia até estar à espera de tudo. Ovnis a sobrevoar Lisboa a caminho do deserto do Mojave, ou um outro qualquer projecto de vivenda duplex com terraço, sem piscina, para a Cova da Moura, feito pelo engenheiro Sócrates. No entanto, com o Clube das Virgens foi diferente, pois apanhou-me de surpresa e agarrou-me sem hipótese de pestanejar. Foi uma coisa violenta e à bruta, mesmo.

Eu já tinha ouvido falar de virgens, sim. E até conhecia algumas/alguns, claro. Para não dizer que eu próprio o havia sido durante vários anos, lembrança que provocara em mim uns quantos calafrios na espinha. Então, a vontade de descarregar meia dúzia de baboseiras ao meu melhor (pior) estilo foi, por assim dizer, instintiva. Um ligeiro trabalho de investigação, um ou dois exercícios mentais de arranjo florar e pronto, o Clube das Virgens passava, por direito próprio, a fazer parte desta coisa que eu para aqui faço.

A sócia fundadora do clube foi ao Salão Erótico de Lisboa e teve direito a tratamento diferenciado (não falo desse tipo de tratamento). Com acepipes e aperitivos, provavelmente, e fotografias e entrevistas confirmadas pelos jornais e pela internet. O que sinto é que o tempo vai passando e novidades novidades nem vê-las. Ou seja, o Clube das Virgens está a sofrer de estagnação e perdeu o encanto. É sempre a mesma coisa, sempre o mesmo sorriso, sempre a mesma cara, sempre as mesmas declarações. Está a transformar-se aos poucos numa coisa geracional. Daqui a vinte anos, os miúdos de hoje vão continuar a ver a Margarida Menezes a sorrir e a dizer que ser virgem é a melhor coisa que lhe aconteceu na vida e que é bem melhor do que comer bolachas de água e sal com Tulicreme de chocolate. A mim, acho que já me anda a fazer lembrar o Avô Cantigas.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Alheira De Fumeiro!

Apetecia-me começar este post com um simples mas nobre era uma vez. Um desejo antigo em que já pensei várias vezes, mas ao qual, com muita pena minha, digo-vos, tem-me faltado o engenho para juntar argumento, suficientemente sólido, capaz de servir de fio condutor a tão inspirador inicio. Provavelmente, um era uma vez verdadeiro, um assim como deve de ser, um que fosse ao encontro das minhas mais reais expectativas, pediria daí por diante um assunto igualmente sólido e cativante. Não obrigatoriamente uma história bombástica ou excessivamente surpreendente, mas, no mínimo, algo alicerçado em matéria credível e transbordante de inegável consequência.

A dar-se o caso de não terem reparado, revelo que até hoje não escrevi vírgula que seja relacionado com o tema Bruna Real, o nosso mais recente exemplo da cultura de raízes populares. À espera do sacrifício final, este quadro vivo da pintura naif, que de forma irremediável acabará por ser dilacerado pela primazia dos clássicos, lá vai vivendo o seu sonho pessoal à sua maneira, aproveitando ao máximo o calor dos flashes das máquinas fotográficas, experimentando a efémera e excitante ilusão do fim de uma realidade corriqueira e banal. Mas por aqui me fico, e mais não digo.

Apetecia-me ter começado este post com um simples mas nobre era uma vez. Porém, a página de um jornal lembrou-me o tema Bruna Real. Feliz ou infelizmente, ainda não sei. Ora a Bruna até pode ser um conto bombástico e tudo o mais que as revistas nos queiram fazer crer, mas, por certo, nunca será História, pois pouco mais é do que um não assunto insignificante. Não obstante, cedi à tentação da Bruna Real porque li que o seu ex-namorado comentou alguns dos seus maiores desgostos. Os da Bruna, não os dele. Lá foi dizendo que ela, durante muito tempo, viu-se e desejou-se por um soutien de numeração superior. Que só pensava naquilo. Que era infeliz e não sei o quê mais.

Encaro com uma considerável dose de abominação e perplexidade todas estas pessoas que se promovem à custa dos outros, e que a troco de uns tremoços e amendoins expõem relações antigas na praça pública com o à vontade de quem conta o que comeu ao almoço ou ao jantar. Não sei se lhe hei-de chamar dor de cotovelo, imaturidade, estupidez, falta de educação ou simplesmente “ai que agora é que era, chucha no dedo ó palhaço”. Reconheço que não resisti à Bruna Real. Embora confesse que me estava a preparar para lhe fazer a folha, de alto a baixo. Salvo seja, claro. É que sei que não ia ser brando com ela. Conheço-me. E ainda por cima, ela anda a pedi-las, dia sim dia sim. Se ela quiser, que agradeça ao ex-namorado. Comigo, por agora, safa-se por entre os pingos da chuva.

domingo, 6 de junho de 2010

Casca Grossa - Diálogos Entre Dois Meninos Da Mamã [(M/18)]

Boca1- E então, foste ao piquenique?
Boca2- Estás a falar de quê?
Boca1- Estou a falar de quê? Do piquenique, pá! O piquenique do Tony Carreira!
Boca2- Mas esse gajo não é cantor?
Boca1- É, e qual é o problema? O tipo fez um piquenique com mais de cem mil pessoas.
Boca2- Não gosto de piqueniques.
Boca1- Eh pá, lá estás tu. Mas não gostas de piqueniques porquê?
Boca2- Detesto formigas.
Boca1- Mas quais formigas? Ali não havia formigas nenhumas.
Boca2- Como é que tu sabes se havia ou não, estiveste lá?
Boca1- Quer dizer, estar estar não estive, mas tenho a certeza que ali para o Parque Eduardo VII não há formigas, assim como as há no campo.
Boca2- Pior ainda, há pombos que comem milho barrado em vaselina.

sábado, 5 de junho de 2010

Pescadinhas De Rabo Na Boca!

Se gostarem tanto de concertos ao vivo quanto eu (nem é necessário serem viciados, como eu sou), e se acreditam piamente que a música ao vivo é algo que vos está entranhado no corpo, correndo-vos pelas veias de alto abaixo, então, estou mais do que certo que perceberão esta próxima amálgama de considerandos. Sempre ouvi falar dos Pink Floyd como sendo uma das bandas mais criativas e pioneiras das últimas décadas. E compreendi isso na pré-adolescência e adolescência, quando me ofereceram umas cassetes (sim, K7). Ainda hoje tenho remorsos de os ter perdido quando tive a oportunidade, em Alvalade. Ouvi-los “berrar” debaixo de uma colossal tempestade de luzes e de lasers psicadélicos. Fui estúpido, bem sei. Mas a carteira não era minha, e tenho isso, pessoalmente, como uma desculpa aceitável e como factor atenuante.

Roger Waters, tal qual lêndea e piolho em volta de cabelo cheiroso e asseado, é o nome que não deixa (e nem pode, justiça seja feita) de estar associado aos Floyd. E só é pena que, aos poucos, se tenha transformado numa prima-dona de porcelana, com um ego maior do que o planeta, transformado no género de pessoa que acaba por passar o resto da vida a tentar enfiar, à cabeçada, um elefante dentro de um mini. Mas vai voltar aos espectáculos em Portugal. Uma imensa tournée mundial. E na certa será acompanhado por uma parafernália de material e por megalómanas encenações. Quanto ao concerto? Quanto à música? Noventa e cinco por cento será Pink Floyd, Pink Floyd, Pink Floyd, Pink Floyd…E não duvidem!

Nunca simpatizei com as compilações, e muito menos com as denominadas carreiras a solo de todos quantos se escapam das respectivas bandas, após um primeiro sinal de sucesso massificado e unânime. Sempre quis distância dessas carreiras a solo baseadas em direitos de autor de reportório antigo. E é, talvez, por isso que já tenho bilhetes para os Limp Bizkit e para os Interpol. É que por minha vontade Mr. Roger Waters pode mas é ir dar banho ao cão. Mas isto sou eu a dizer, que sou mau e ruim como as cobras, e não percebo nada disto dos concertos. Certo é que, nessa noite, para chatear, vou mas é ficar em casa, todo esparramadinho no sofá, e refastelado ao máximo a ouvir “The Delicate Sound of Thunder”, claro está, dos Pink Floyd.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Sentido Das Coisas!

Algures pelos anos oitenta, dois mil anos depois de alguém o ter inventado lá para os lados da Grécia, foi mais do que natural ter-me deixado levar pela moda do “yo-yo”. Como não poderia deixar de ser, à semelhança de todos os meus amigos, aprendi a fazer a ponte, a estrela e o satélite. Manobras com o sentido possível a fazerem desafiar a imaginação e a habilidade individual de cada um.

À época, Nova Iorque ia bem mais para além do que, simplesmente, a cidade que nunca dorme e, em simultâneo, nas ruas, fervilhava de dinamismo, envolta num manto colorido de grafites rebeldes, ao som irreverente do Breakdance. O sentido de uma atitude alternativa. Anos dos yuppies, evolução natural dos hippies, viciados no lucro e não nas causas nobres. Um novo sentido. Anos da consagração doItálico Cubo de Rubik. O sentido da lógica e da cor.

Dentro de uma semana estaremos submersos nas notícias do campeonato do mundo de futebol. E dizem que somos bons e que por isso, desta vez, queremos experimentar o sabor da glória. Dar sentido ao investimento e às expectativas. E querem que ponhamos as beiças num tubo de plástico, a lembrar uma corneta, por onde devemos soprar todo o ar que tivermos nos pulmões. E fazer barulho, fazer muito barulho, o maior estardalhaço que conseguirmos, sem vergonha e com convicção. Ou seja, sem o menor pingo de sentido…

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Canções De Embalar!

Podem já ter passado uns quantos dias, e até o Ronaldo já ter descoberto que o Pacto de Varsóvia, afinal, é coisa do passado (coitadinha da Dona Dolores), todavia, ignorar a reunião da arte da música festivaleira do Sábado passado seria estar a renegar a uma forma de entretenimento capaz de ser um descanso para a alma e um conforto para o corpo.

Para mim, o Festival da Eurovisão foi sempre um mundo de sentimentos amplamente contraditórios, uma imensa maratona sinfónica sofrível, apenas suportada através de uma estratégia tripartida de técnicas de motivação. Dito isto, ignorar até à exaustão as canções dos outros países, acreditar de forma mediana que a nossa representação (naquele ano) poderia atingir o pódio e, por fim, vibrar com o período da votação e da consequente atribuição da pontuação sempre me pareceu o método ideal para substituir o transe provocado por uma injecção de morfina.

Ou seja, no fundo no fundo, a abordagem ao evento sempre passou por, basicamente, abstrair-me da parte artística e apostar, directamente, na parte do negócio ou, estupidamente, talvez, transformar aquele conjunto de música celestial num jogo do bingo à escala internacional.

Mais uma vez, este ano, ainda que por mero acaso, ignorei, por exemplo, os alemães a cantar em inglês (uma forma de influenciar os britânicos a aderir ao Euro???), acreditei moderadamente que tínhamos uma canção capaz de fazer história (apesar de não ter chegado a assistir à performance lusa, retido que fiquei na casa de banho por mais tempo do que estava à espera) e diverti-me à grande, mas mesmo à grande, com o período da votação final (os russos a votar nos ucranianos, os ucranianos a votar nos russos, os croatas a votar nos sérvios, os sérvios a votar nos croatas, os dinamarqueses a votar nos suecos, os suecos a votar nos dinamarqueses…).

Com tanta honestidade, e no meio de tanta luz e cor e espectáculo, ficou-me na memória a frase mais repetida da noite pelo locutor da RTP, a convincente…”nada para Portugal”. Ora, com provas destas, nada como me render à evidência e por isso dizer a pulmões cheios, e em inglês, claro…”Festival Forever!”.