Não é que tivesse percebido grande coisa no meio de tanto berro e de tanta gritaria mas, ainda assim, deu para ver que, no fundo no fundo, havia ali uma atitude louvável não tão despropositada quanto, à primeira vista, podia fazer crer.Assim de repente, observando ao longe e sentado confortavelmente na esplanada, a figura era desagradável. Alto, de aspecto rude, roupas velhas e sujas, barba de vários dias e por controlar, não era aquele o tipo de pessoa ao qual apelidaríamos de modelo social. Talvez outros conceitos, outros adjectivos. Sem abrigo, mendigo; por aí.
A mim a cerveja sabia-me bem. E seguramente que os outros, que ajudavam a compor o local, fosse o que fosse que estivessem a tomar, não se queixavam do momento que estavam a viver. Mas os gritos não paravam, os insultos, a raiva.
O senhor era alemão. Estava furioso. Gritava para o ar. "Porcos, são uns porcos", dizia. Estava imundo. Calças de ganga nojentas. E ali se manteve, no largo, perto da estação do Rossio, a apanhar todo o tipo de lixo que encontrava no chão, implacável, nos canteiros, nas escadarias, para depois o depositar num contentor, à vista de todos, junto a uma parede.
Na mesa ao lado, reparei que um casal deu mostras de estar incomodado. Ele fumava e no final, acto contínuo, e ainda meia por apagar, largou a beata para baixo da mesa, directamente para o chão, onde jaziam outras duas.
Pois!


















